—Ouvi tudo—exclamou elle—Perdôa-me, Ludovina, pelas cinco chagas de Christo. E foge d'essa mulher, que é a causa de eu ser um matador.
—Tem razão; vae, minha filha—disse D. Angelica, afastando-a de si.
—Sr. barão—disse Ludovina—eu não deixo uma mãe{108} culpada para seguir um assassino. Saia da minha presença, que o detesto. Apenas romper a manhã, deixo esta casa, deixo-lh'a para que o senhor caiba n'ella com o seu remorso. Matou um homem, sr. barão, um homem que não conhecia; matou-o a sangue frio, e será capaz de praticar uma crueldade menor matando-me a mim.
D. Angelica arrancou-se aos braços da filha com furioso impeto, e postou-se terrivel diante do barão, exclamando com uma toada de voz soturna e tremula:
—Com que direito assassinou um homem, scelerado, carniceiro?
O barão tremeu, recuou, e pendeu o queixo inferior relaxado pelo espasmo.
—Responda á amante do homem que matou; á mulher que acceita voluntariamente a infamia da sua culpa, para ter o direito de pedir contas ao assassino de Antonio d'Almeida. Querias, com essas mãos tintas de sangue, tocar em minha filha, miseravel algoz, que és tão estupido como sanguinario!
Ludovina, cingindo a cintura da mãe, arrastou-a para longe do barão, que parecia, ao passo que ella falava, ir-se petrificando.
A vehemencia da ira decaíu subitamente em syncope. D. Angelica encostou a face desfallecida ao seio da filha, que a levantou nos braços, e deitou no leito.
E voltando-se para o miserando homem, cujo rosto confrangido accusava os pungimentos do remorso, a baroneza, em tom de cólera mal reprimida, disse: