—O senhor não ha de ser mais feliz que as pessoas{109} a quem deu a morte, e a eterna vida de lagrimas. Pediu-me perdão? eu já lhe havia perdoado as suspeitas, as desconfianças, os insultos, as vergonhas a que hontem me expoz na presença dos seus creados. Tudo lhe perdoei, em quanto o suppuz demente; hoje, que o considero um criminoso de morte, e que não tenho quem me defenda das suas mãos póde matar-me, que o não chamarei á presença de Deus para ser julgado.
—Ludovina—balbuciou o barão, com o rosto coberto de lagrimas—eu matei esse homem cuidando que era elle o teu amante...
—Era a mim que devia matar-me, senhor.
—Não podia ainda que quizesse, porque a minha tenção era matar-me e deixar-te viva, para que tu ao menos te lembrasses de mim com pena, quando já me não visses n'este mundo. Esse homem ainda não morreu, Ludovina; póde ser que se cure, e eu vou-me ajoelhar aos pés d'elle a pedir-lhe perdão, e, se tu quizeres, pedirei tambem perdão a tua mãe.
—Não fale n'essa infeliz a ninguem, snr. Dias, a ninguem. Aqui a deshonrada sou eu. Se o descobrirem como assassino de Antonio de Almeida, diga, se quer que eu o não amaldiçôe, diga que esse homem era o meu amante; mas não fale em minha pobre mãe...
«Que dizes tu, Ludovina? Pois tu queres que se diga que eu fui deshonrado por ti?
—Deshonrado está o senhor, desde já, desde que matou, ou quiz matar por uma suspeita um vulto desconhecido...{110}
«Elle vinha entrando para o jardim, Ludovina, e tua mãe estava na janella...
—Cale-se! isso é mentira! minha mãe estava deitada na sua cama...
«Não estava, Ludovina...