Havia dois que espiritavam a galhofa de Melchior Pimenta; um, que repudiando, timbroso e austero, a esposa tentada pela cobra d'este paraizo terreal, onde as cobras inçam como em matagal bravio, recebe uma carta de dama d'alta estirpe, onde se lhe censura o burguez despique de peccadilho tão corrente em gente fina. O marido acceitára a correcção e a mulher incorrigivel. Melchior ria até caír.
Outro, amante da paz caseira e fricassés acirrantes, conhece no aspecto carrancudo da mulher, e no aguado{112} dos molhos, os desvios do amante: inventa pretextos para aproxima'-los e ameiga os arrufos com um jantar campestre.
Outro... Melchior conhecia outro, e eu conheço-o a elle, e mais dez exemplares que Brantome não archivou,[[4]] todos aporfiando em delicias sublunares.
Mas o ditosissimo, o que vive e morre sem sentir na consciencia o toque despertador, o momento da predestinação cumprida, esse é um só no meu catalogo.
Melchior Pimenta, se quizeres um dia erigir estatuas aos deuses tutelares da tua prosperidade, lembra-te de Ludwig que farejou no opio a morphina; de Seguin que a descreveu; e de Sertuerner que aperfeiçoou o processo da extracção.
Sem a morphina, não serias mais feliz que Octavio, que Cicero, que Domiciano, e tantos grandes e sabios do paganismo que podem, sem vergonha, apparecer diante de outros não menos sabios, e grandes senhores da christandade.
Nasceste n'um folle, Melchior Pimenta!{113}
XI
Mulheres são os melhores juizes de mulheres.
Disseram philosophos e moralistas, uns, grandes santos como S. Paulo, e outros, grandes atheus como Voltaire, que a mulher é um ser exuberante de sensibilidade, e apoucado de raciocinio.