D'ahi vem o denegarem-lhes accesso ás sciencias abstractas, ás politicas, aos parlamentos, ao magisterio, ás regiões intellectivas do machinismo social, e mandarem-nas cuidar dos filhos, e fiar na roca.

Se o absurdo vinga, se, por alvitre grosseiro do mais forte, a mulher é um ente inepto para exercitar a razão, com que direito as julgamos e sentenciamos, segundo a razão, sendo as suas culpas demasias de sentimento?

A injustiça é flagrante e odiosa.

Privam-nas de razão para as excluirem das funcções que a requerem; sentenceiam-nas pela razão, se o sentimento, seu dom essencial, as desvia do piso demarcado por ella.{114}

Isto é uma tyrannia, uma inquisição, uma crueza turca.

A mulher não pode ser julgada por nós. Somos os senhores feudaes da razão. A nossa alçada respira a prepotencia do baraço e cutello. Estamos em insurreição permanente contra o santissimo apostolado de Jesus, que baixou seu divino braço por igual sobre o homem e mulher.

Não podemos superintender no fôro do coração, porque a nossa jurisprudencia é toda de cabeça, e o nosso codigo em pleitos da alma é estupido ou hypocrita.

Quem é o juiz da mulher? O homem que a despenha do abysmo, onde a lançou o amor, ao abysmo do opprobrio.

É o homem, que lhe entalha o ferrete da ignominia na face onde imprimira o beijo da perdição.

O altar onde se adora uma mulher é ao mesmo tempo a ara onde ella se dá em holocausto. Peccadora por muito sentir e chorar, amar e crer, quando nos abre céos e céos de alegria e gloria, abrimos-lhe nós o inferno dos desenganos, e o supplicio extremo do descredito. O mundo não as exila, mas affronta-as; o coração não as encrimina, mas agonisa na horrivel soledade para onde a razão o desterra.