E somos nós os juizes, porque entramos n'uma herança usurpada pela força primeiro, e legalisada depois pelo sophisma escripto.
A mulher foi escrava do braço, antes de o ser da superioridade moral.{115}
Quando o homem chamou a sciencia a dar um testemunho falso da sua primazia, a mulher, quebrantada pela escravidão do braço, não pôde remir-se com as forças do espirito.
Ainda assim, o tyranno, receoso da emancipação, fez em redor da escrava as trevas da ignorancia, para que a razão da mulher não pudesse conceber da luz o germen que a rehabilitasse.
Pegou de formosa flor, cercou-a de estevas, cobriu-a de sombras por onde o sol não podia coar uma restea reanimadora.
Esta machinação arteira sobreviveu a todas as borrascas sociaes. Os fautores, e ainda os martyres da egualdade perante Deus e perante a lei, nunca proferiram uma palavra, nem verteram gotta de sangue para o resgate moral da mulher.
O Filho de Maria disse que a mulher era egual ao homem, e levou para o céo o segredo da sua emancipação.
Ficamos nós cá, os açambarcadores do entendimento escrevendo livros, que sacrilegamente denominamos de moral derivada do Evangelho, e n'elles demarcamos a profunda raia que extrema RAZÃO de SENTIMENTO. A razão para nós, o sentimento para ellas. Se, todavia, o sentimento claudica nos preceitos da razão pautada e insoffrida, condemnamos a mulher pela culpa de se deixar perder na escuridade, á mingua de uma lampada que lhe negáramos.{116}
Não sei se rasgue estas cinco paginas do manuscripto. Se alguem me assegura que entre vinte mil leitoras (orça por isto o numero das senhoras que compram livros em Portugal) se me asseguram que entre as vinte mil ha duas que me entenderam a parlenda, e me ficam desejando muita saude e graça para servir a Deus, não rasgo as paginas, embora os homens me mandem, em portuguezissima phrase, bugiar.