Quando comecei o capitulo, tinha de olho dizer, á quarta linha, que, ácerca de culpas de mulheres, já mais consulto homens.
Mulheres são os melhores juizes de mulheres.
A respeito de D. Angelica, consultei uma sua amiga de infancia, tão virtuosa como indulgente; mas virtuosa—não me afiram lá a palavra pelo elucidario caseiro—virtuosa amando muito e com muito despego de pecos empecilhos, atravancados pela impostura.
Disse-me ella o seguinte:
«D. Angelica é das poucas mulheres que podem fazer do seu crime um titulo ao respeito das mulheres que sentem o coração pela dôr.
—Ao respeito!—atalhei eu, com fumos de juiz, vicio do sexo ingrato, onde por desventura me encontro.
«Sim, ao respeito, porque D. Angelica amando vinte annos um homem, juro-lhe que não teve uma hora de consciencia quieta, nem intrepidez para sacrificar o coração ao repouso da consciencia.
—Vinte annos! pois era amor de vinte annos o do tal Almeida que o barão de Celorico arcobuzou?{117}
«Mais seria, talvez. Angelica era filha segunda de um fidalgo pobre do Minho. Foi educada comigo, no Porto, no recolhimento de S. Lazaro. Passava as festas do anno em casa de um doutor, que tinha filhas, e um filho que se formava n'esse tempo. Esse filho era o Antonio de Almeida, que o senhor conhece, e D. Angelica amou desde os quinze annos, com o amor immenso das sympathias contrariadas.
O doutor descobriu a affeição do filho, e impoz-lhe um violento termo, prohibindo-o de vir ao Porto nos dois ultimos annos da formatura.