As cartas de Antonio de Almeida recebia-as eu, e Angelica relia-as, ao cabo de dois annos de ausencia, com paixão cada vez mais entranhada.
O fidalgo pobre resolveu casar a filha com um rapaz que se dizia rico. Melchior Pimenta era filho bastardo de um conego opulento, e litigava a herança paterna, com a certeza do vencimento.
Angelica saíu do recolhimento sem saber para que fim saía. Friamente avisada de que havia de casar com Melchior Pimenta, embruteceu, ficou como tolhida, e desmemoriada do amor que alimentára tres annos.
Quando o coração reviveu do lethargo, a indiscreta menina escreveu ao pae de Antonio de Almeida, pedindo-lhe que a pedisse ao pae para casar com seu filho. Que innocencia!
Escreveu ao marido que lhe destinavam, confessando que não podia dar-lhe o coração.
O doutor, se ella lhe conviesse te'-la ía. Angelica era{118} pobre. Melchior Pimenta não respondeu á carta, nem deminuiu as instancias.
O fidalgo, informado pelo doutor, agradeceu-lhe a probidade da denuncia, e accelerou o desfecho.
Angelica não soltou um gemido na presença do pae; sei que apenas lhe disse: «A historia de muitas mulheres desgraçadas começa como a minha.» Disse, e pôz a cabeça no altar do sacrificio. Ao marido apenas perguntou se recebera uma carta d'ella...
Participei a Almeida o casamento de Angelica. Respondeu-me elle que não acreditava a infamia emquanto a perfida não tivesse o cynismo de lh'a dizer. Modifiquei as palavras d'esta carta, contando-as á minha amiga. Ella soluçou nos meus braços muito tempo, e disse com vehemente resolução: «Pois sou eu que lhe vou dar parte do meu casamento, e offerecer-lhe a minha casa.» Que fazes tu, menina?—repliquei eu, longe de suspeitar a resposta: «Faço á prepotencia de meu pae o sacrificio da minha dignidade, e castigo um homem que me comprou.»
Julguei-a desvairada pela angustia, e reservei para melhor ensejo os conselhos que os meus vinte e cinco annos, já apalpados por amarguras de coração, podiam dar-lhe.