Este romance foi escripto n'um subterraneo, ao bruxolear sinistro de uma lampada.
Alfredo de Vigny não diz que escreveu um drama, ás escuras, em vinte dias? E Frederico Soulié não se rodeava de esqueletos e esquifes?
E outros não se espertaram com todos os estimulos imaginaveis de terror? Menos o do subterraneo... este é meu, se me dão licença.
Pois foi lá que eu desentranhei do seio estes lobregos lamentos.
No fim de cada capitulo, vinha ao ar puro sorver alguns átomos de oxigenio, e todos me perguntavam se eu tinha pacto com o diabo.
Almas plebeias! não sabem o que é a fidalguia do talento, que tem alcaçar nos astros, e nos antros lobregos da terra; não entendem este fadario do «genio», que elles chamam «excentricidade», como se não houvesse um nome portuguez que dar a isto.
O leitor sabe o que isto é? Já sentiu na alma o apertar de um caustico? Excruciaram-no, alguma vez, os flagellos da inspiração corrosiva, como duas onças de sublimado?
Se não sabe o que isto é, estude pharmacia, abra um expositor de chimica mineral, e verá.
Não cuidem que podem ler um romance, logo que soletram. Precisam-se mais conhecimentos para o ler que para o escrever. Ao auctor basta-lhe a inspiração, que é uma cousa que dispensa tudo, até o siso e a grammatica. O leitor, esse precisa mais alguma cousa: intelligencia;—e,{8} se não bastar esta, valha-se da resignação.
Ora, está dito tudo.