Em quanto D. Angelica dormita os somnos curtos e sobresaltados da febre, a baroneza despertou o pae, chamando-o á ante-camara.
Melchior Pimenta, estremunhado e como ebrio dos aturdimentos da morphina, extranhou á filha a extraordinaria madrugada, e perguntou se o barão fizera alguma nova loucura.
—Não podemos continuar a existir n'esta casa, meu pae—disse Ludovina, sem saber ainda como sahir-se bem de lance tão perigoso para sua mãe.
«Então que houve? esse alarve que fez? será necessario amarra'-lo?
—O necessario é sahirmos; mas a mãe está muito incommodada...
«Que tem ella?!
—Os meus desgostos affligiram-n'a a tal ponto que está ardendo em febre, e não sei se poderá transportar-se.
«Vamos vê'-la.
—Pois sim vamos, mas não perca tempo. Um medico{124} é o mais urgente agora. Veja-a; se ella estiver descançando, não a desperte, e vá dispôr as cousas em nossa casa para nos mudarmos logo, sim, meu pae?
«Mas que fez o bruto?! A gente ha de sair d'aqui sem dar uma satisfação á opinião publica? Não vês que esta saida precipitada auctorisa a maledicencia a calumniar-te como o barão te calumnia?