—E eu direi que era o meu amante; darei em publico quantas provas puder dar para o desmentir; hoje mesmo irei ser a enfermeira d'esse homem, se elle não tiver morrido. O sr. Dias será tido na conta de assassino, e assassino ridiculo, que mata o amante de sua mulher, e denuncia adultera sua sogra, para que se supponha que os seus merecimentos não podiam ser vencidos por um rival.

—Tu és uma serpente, mulher!—bradou o barão, fazendo com os braços e a cabeça as azas d'um alambique—És um dragão! foste o demonio que me appareceste em corpo e alma! Vae-te para as profundas do inferno, e nunca descanço tenhas noite e dia em quanto me não vieres pedir perdão de quereres deshonrar teu marido, que te deu palacios, e quintas, e carruagens, e tudo quanto cobre o sol. Vae-te para onde quizeres, ingrata mulher, e quando souberes que eu morri doudo vem tomar conta de tudo isto que é teu, porque o que vocês querem todos é acabar comigo, para ficarem com isto que eu ganhei com honra a trabalhar como um mouro!

Ludovina voltára as costas ao berreiro virulento de João José Dias.

Entrou no quarto de sua mãe, que não resurgira ainda do torpor febril. A creada, que lhe assistia, entregou á baroneza uma carta, sobrescriptada a D. Angelica. Era-lhe{132} conhecida a letra de Antonio de Almeida. Alvoroçada com a aprazivel certeza de que Almeida vivia, Ludovina abriu a carta sem reflectir. Apenas viu no topo do papel «Angelica», simplesmente «Angelica», estremeceu, caindo em si. Era uma carta do amante, do amante de sua mãe. Repugnava-lhe o le'-la, mas a amizade instigava-a, desprezando os escrupulos de uma virtude intempestiva.

Leu o seguinte:

«Angelica, fui ferido com um tiro quando entrava no jardim d'essa casa. O segredo do meu assassino morrerá comigo. O meu ferimento dizem ser mortal. Não importa. Morro amando-te. Esperava assim morrer. Mas a tua honra, minha amiga? Não bastará a minha vida para salva'-la? Dá um beijo a tua filha, ao nosso anjo que eu não verei jámais. Sacrificamo'-la ambos, ao verdugo de... A febre deu-me este intervallo. Adeus, até ao céo dos desgraçados.—A. de A.»

Ludovina rompeu em gemidos, e caíu de joelhos orando com o fervor da desesperação. Nada mais triste n'este mundo que o espectaculo d'aquelle quarto! Não é preciso grande coração e poder de phantasia para acceitar um quinhão de tamanha angustia. A alma de pedra estala de encontro a este conflicto que esmorece na pintura. Cada lagrima ardente de Ludovina bastaria a reaccender a luz de piedade apagada no coração humano. Já imaginastes uma vida com este immenso horto de{133} agonia? Na previsão de todos os infortunios, concebeu alguem as torturas d'aquella mãe, e da filha que acceita a deshonra para salvar-lhe o nome? Desamparados da esperança e de Deus, cobrae alento nas dores com que não podeis, agradecei ao vosso anjo mau os supplicios vindos, pedi-lhe mais, pedi-lh'os todos, menos o calix de Angelica, e Ludovina, porque ha ahi o succo de todos os venenos provados n'este inferno da vida, obra prima de uma causa eterna, obra que mais me espanta a mim que a creação dos astros, do mar, e do homem.

A minha grande prova de Deus, da justiça, e da condemnação é este inferno. O outro... é inferior á Omnipotencia que deixou, no seio da creatura, aberta a garganta do abysmo, onde a alma se despenha a devorar-se.{134}
{135}

XIII

Eu costumo reunir alguns peritos em letras magras como estas, e leio-lhes alguns capitulos dos meus romances, com adoravel modestia e exemplar submissão. Recito-lhes sempre um preambulo improvisado que estudo cinco horas, no qual os convido, com humildade de aprendiz inexperto, a que me corrijam as hyperboles desgrenhadas, me desbastem as excrescencias da taramelice a que sou atreito, e me recomponham os desatavios da fórma em que me descuido, se a imaginação desfila comigo pelos prados floridos do inverosimil.