—Que se ha-de seguir?
«Eu sei!... tu queres matar-me, mulher! mata-me, mas deixa-me a honra, que eu estimo mais que tudo. Dou-te tudo quanto tenho, deixo-te em liberdade, torno para o Brazil; mas não digas que me foste infiel; não digas que esse homem era teu amante. Peço-te isto de joelhos, Ludovina.
Era feio o espectaculo, mas fazia dó a postura humilde do barão. Ludovina, apiedada ou aborrecida da attitude, pôz-lhe as mãos nas espaduas, pedindo-lhe, affectuosa, que não estivesse assim.
E continuou:
—Entre nós ha só uma reconciliação possivel. Vou fazer-lhe uma proposta: se o senhor a acceita, retiro-me contente de sair por um contracto; se a não acceita, vou de sua casa como fugitiva. O sr. Dias não dirá a alguem que deu um tiro em Antonio de Almeida; não fará suspeitar pelo mais pequeno indicio que Antonio de Almeida foi ferido, quando entrava no jardim d'esta casa; não proferirá o nome de minha mãe, contando ou ouvindo contar essa desgraça acontecida esta noite. Estas são as suas obrigações do contracto que lhe proponho; as minhas são as seguintes: sairei de sua casa, com minha mãe, porque o amor que tenho a minha mãe é incomparavel ao simples respeito que o sr. Dias me inspira; sairei, calando o segredo do seu crime, para que ninguem desconfie de que o senhor me surprehendeu com um amante. Auctoriso e quero que meu marido diga ás pessoas admiradas da nossa separação que o{130} meu genio era intractavel, que a minha educação era pessima, que as minhas impertinencias de rapariga eram insoffriveis. Diga tudo o que lhe lembrar, em meu desabono, que eu com o meu procedimento desmentirei alguma desconfiança injuriosa que possa haver. Eu não levo d'esta casa o valor de um ceitil. Os meus bahus irão como saíram do meu guarda-roupa de solteira. O senhor fica na posse livre de tudo que tinha, menos de uma mulher que o ha-de infallivelmente flagellar. Essa mulher sou eu, sr. Dias, porque o não amo, nem se quer estimo. Respeito-o, temo-o, d'aqui a pouco hei-de odia'-lo. O homem que o senhor feriu ou matou creou-me nos braços, foi o primeiro rosto extranho que vi ao pé do meu berço, ha quinze annos que o via todos os dias, da amizade que lhe tinha ao amor que se pode ter a um homem delicado, generoso, e confidente das alegrias e maguas da minha familia, não ia grande distancia. Eu choro esse homem, sr. Dias, não é só a minha desgraçada mãe que o chora. Se ella era amante d'elle, eu, como filha, não tenho direito a censura'-la; como mulher de coração creio que lhe perdoaria. Tenho dito mais do que devo, e importa ao sr. Dias. Entendeu-me bem, quer que eu repita por outras palavras o que disse?
—Não é preciso... entendi bem...
—Qual é a sua resposta?
—É necessario pensar, Ludovina.
—Não lhe dou tempo a demoradas reflexões. Eu hei-de sair d'aqui logo que meu pae volte.{131}
—N'esse caso, faz o que quizeres; mas eu hei-de dizer em toda a parte que Antonio de Almeida era o amante de tua mãe.