—Aonde?

—A um palacete em Alcantara, onde me disseram que ella morava umas pessoas da justiça em casa do corregedor, e por tal signal que...

—Por signal que...

—O melhor é calar-me, sr. Leite; mas... a fallar verdade...

—O quê? podes fallar... Disseram-te que era uma mulher perdida...

—É verdade, e não me mentiram, queira vossa mercê perdoar-me...

—Fallaste-lhe?

—Sim, sr. Fallei-lhe com mais lagrimas que vozes. Disse-lhe que o senhor seu marido passára uma noite na caza do Salvador; que estivera no quarto a embalar o berço... N'isto, a menina que estava alli a ouvir-me, rompeu a chorar que cortava o coração, e a clamar que queria ver seu pai; que queria ir com o seu Bernardo ver o seu paizinho; que a mãe era muito má em não a deixar ir, e outras coisas, meu amo, que faziam chorar as pedras. E vai a mãe, neste entrementes, pega por um braço da filha com arremessão, e tira por ella lá para o interior da casa. Eu fiquei estarrecido, a ouvir os gritos da menina lá dentro, até que chegou um escudeiro, e me mandou sahir d'alli por ordem da fidalga. «Pois sim, eu vou; mas vá vossê dizer á senhora que o seu velho criado não a offendeu; e que eu vim cá para lhe dar conta das alfaias da sua casa, ou saber se alguma lhe falta, que de certo não fui eu que a tirei.»—Foi o escudeiro com o recado, e voltou logo dizendo que a fidalga não queria saber de contos; que me puzesse na rua. Tornei-lhe a mandar pedir que ao menos me mandasse entregar a minha árca onde eu tinha o meu fato e as minhas economias. O escudeiro, talvez porque tambem era pobre e me viu a chorar, teve pena de mim e tornou lá dentro. D'ahi a pouco voltou e disse-me que ia commigo para me dar a minha arca. Veio com effeito, e pelo caminho fora, de Alcantara até aqui á rua, e depois lá no meu quarto, contei-lhe tudo que se tinha passado; e elle que não sabia de nada, porque sahiu do palacio real de Belem para ir servir aquella fidalga por ordem do sr. Antonio Cavide, disse-me então o que vossa mercê, pelos modos, já sabe...

—Sei... E então, meu Bernardo, estás muito pobre?

—Não, meu amo. Ainda tenho dinheirinho do que vossa mercê me dava quando era solteiro; mas, como estou muito acabado e não posso trabalhar com as mãos desde que m'as quebraram na tortura, não tenho remedio senão viver com muito pouco, para não ter de ir pedir por portas. E vossa mercê tem mingua de dinheiro? Eu tenho alli quinze moedas de ouro de quatro cruzados cada uma; se vossa mercê as quer, assim Deus me salve como eu lh'as dou com todo o meu coração...