—Não preciso; obrigado, meu querido amigo, obrigado... Disseste-me que minha filha chorava—volveu Domingos Leite, depois de longo silencio e profundo recolhimento.
—Se chorava!.. quando me viu e conheceu, corria para mim com os bracinhos abertos; mas a mãe botou-lhe a mão ao braço, e puxou-a para si. Assim que eu contei a passagem do berço, e da tristeza com que o paisinho da menina olhava para elle, as lagrimas saltaram-lhe como punhos; e a mãe lançava-lhe de esguelha uns olhos furiosos, que pareciam querel-a espedaçar...
—Ai!.. se eu a visse...—murmurou Domingos Leite.
—Como hade vossa mercê vel-a, meu senhor!... Não pense n'isso, porque tenho ouvido dizer que, se o apanham, a sentença menor que tem o meu amo é degredo perpetuo, se não lh'a derem peor... A que veio a Lisboa, sr. Domingos Leite? que peccados o trazem aqui?...
—Sabel-o-has, quando fôr tempo...—respondeu Leite serenamente—Escuta, Bernardo: sabes que tenho pai?
—Pois não sei!..
—Chama-se Antonio Leite, vive em Guimarães, e tem officina de cutelleiro na rua Infesta. Agora, jura-me que cumprirás o que te vou pedir.
—Não é mister jurár, senhor!
—Se acontecer eu ámanhã ser preso ou morto...
—Sancto nome de Jesus!—clamou Bernardo.