—Diga V. Reverencia a el-rei nosso Senhor que eu só entrarei em Portugal, quando lá fôr para o salvar da morte.
O padre não obteve illucidações d'estas vagas palavras.
Assim as revelou a D. João IV, que lhes deu a maxima ponderação, sem todavia suspeitar de qual dos fidalgos homisiados poderia proceder a tentativa, se dos Mascarenhas, se dos Lencastres, se do conde de Miranda, se do conde de Figueiró, se dos Tavoras, se dos Taroucas, se de todos. De Domingos Leite Pereira não se lembrou, ou apenas se lembrava quando Maria Isabel lhe dizia:
—Vossa magestade, mais dia menos dia, acha-me assassinada por elle...
O elle substituia a palavra que tanto repugnava ao rei como á princeza do seu economico serralho.
Sorria-se el-rei; e por delicadeza com a dama lhe não replicava que o expatriado lhe havia dado provas de se prezar mais a si no seu orgulho do que a ella na sua belleza.
Quando Roque enviou o recado a D. João, já sabia que Domingos Leite deliberára voltar a Lisboa se não renovar a tentativa. Flagelavam-no os apodos e zombarias que secretamente lhe iam em cartas anonymas, e as censuras de Roque da Cunha, não á covardia de homem, mas á pusillanimidade de pai.
Houve horas em que o desgraçado acariciou a ideia do suicidio; porém, lá vinha a imagem da filha arrancar-lhe o veneno como lhe arrancara a cravina. N'esta reluctancia atroz, obsediou-o o pensamento de passar a Lisboa, esconder-se em caza de Bernardo, espiar a hora em que Maria Isabel estivesse com o amante, entrar de sobresalto na caza d'ella, fugir com a filha para Castella, passar-se a Amsterdão, buscando o amparo de Francisco Mendes Nobre.
Revelou o alvitre a Roque da Cunha, que lhe respondeu: