Ao mesmo tempo, Bernardo, que passára a noite e o dia em oração, quando viu terminadas as festas do Triumpho, e nenhum caso extraordinario se contava em Lisboa, nem voz humana proferia o nome de seu amo, deu fervorosas graças ao Senhor, porque attendera ás suas preces.
O apparecimento de Roque e Domingos Leite em Madrid foi acolhido com frieza dos fidalgos portuguezes e dos ministros de Filippe IV. Diogo Soares, rindo da historia pueril da visão da menina que paralisára o braço do pai, disse que os covardes, antes de se affrontarem com emprezas grandes, deviam medir a sua altura pela das meninas que lhes podessem apparecer na hora da prova. Roque da Cunha transmittiu a phrase, qual a recebêra, a Domingos Leite.
O frustrado regicida volvêra-se á vida solitaria com a sua dôr exacerbada pela nota de covarde e digno marido da meretriz Traga-malhas. Quem mais lhe carregava a mão no peccado da mulher era D. Vicencia, filha da Barbara da rua dos Cabides. Insidiosamente lhe escreviam satyras celebrando-lhe a façanhosa jornada a Lisboa, e offerecendo-lhe outra commenda para se ir a Pariz matar Luiz XIV, e duas commendas para ir ao inferno matar o diabo.
Na correnteza d'estas coisas, fallecêra em Madrid um padre da companhia de Jesus, a quem D. João IV estipendiara grandiosamente na espionagem dos planos de guerra. Esta pêrda contrariava o rei, e mais ainda o impedimento de substituir sem dilação a sagacidade do jesuita, que sahira bem amestrado do gyneceu de padre Antonio Vieira.
Arrolando os portuguezes mais infamados que demoravam em Hespanha, D. João lembrou-se de Roque da Cunha. Conhecia-o pela falsa delação de Mathias de Albuquerque, e por homicidios que a obscuridade protegera, como o do pai de Miguel de Vasconcellos, divulgado em 1640, e indultado pela politica. E, bem que soubesse da sua parceria com Domingos Leite no assassinio do padre Luiz, intendêra o rei que o sicario, vendido ao marido de Maria Isabel, estava em almoeda para quem o quizesse comprar.
No proposito de chatinal-o, enviou Gaspar de Faria Severim a Madrid pessoa idonea, e conhecida de Roque da Cunha. Era quasi sempre um clerigo ou frade de inculcada virtude e erudição theologica, por parte das duas nações irreconciliaveis, o espia ou o cathequista d'essas personagens indispensaveis na diplomacia d'aquelles tempos, assim como o algoz era o artigo fundamental da arte de reinar. Apenas restaurado o reino, fôra fr. Diogo Seyner espião de Castella em Portugal, e tambem um padre Azevedo, que acabou envenenado em Angola. Em compensação, as denuncias mais importantes que vinham de Hespanha, quanto ás intenções de invasão, procediam da companhia de Jesus, pois que os Philippes, com quanto patricios do sancto fundador da ordem, nunca se avençaram politicamente com a theocracia da omnipotente roupêta. Ainda n'aquelle anno de 1647, a Hespanha festejava a perfida passagem do jesuita flamengo, o padre Cosmander, que vestiu as insignias de sargento-mór de batalha, depois de as ter já usado no exercito portuguez. Este sacerdote, que timbrava de engenheiro, viria outra vez ajudar os nossos a repellir os estrangeiros, se não morresse debaixo das baterias portuguezas; no entanto, emquanto viveu, deu de si boa conta, espiando as duas nações, visto que nenhuma era sua.
Com este se intendêra o padre portuguez, e ambos com Roque da Cunha.
A proposta era em termos de seduzir um aventureiro com dous terços menos da perversidade de Roque. D. João IV enviava-lhe o perdão do crime de homicidio na pessoa do padre Luiz, aproveitavel quando a sua continuação em Castella fosse desnecessaria, e elle quizesse voltar ao reino. Enviava-lhe como comêço de gratificação trez mil cruzados, e promessa de ao diante o ir premiando com dinheiro á medida dos seus serviços e habilidade nas pesquisas. Quanto ao futuro, quando Roque se repatriasse perdoado, despachal-o-hia em pingue emprego na caza da India e Mina.
Seduziram-no; jactavam-se os dois jesuitas de o terem seduzido; mas a verdade é que o infame não deu ansa a que os seductores provassem os dotes de corrupção: rendeu-se logo.
Dias depois, Roque da Cunha, ao despedir-se do agente portuguez, disse-lhe com mysterioso recato: