—Nada... Vamos embora, se te não escandaliza um covarde na tua companhia...
—Eu ia agora perguntar-te se lhe não atiraras por covarde... Porque me não deixaste estar comtigo, Domingos Leite!.. Com que cara entraremos em Madrid!...
—Pois vai só, e deixa-me...—replicou Domingos Leite.
—Fazes-me uma grande compaixão!... Que lagrimas são essas...
—São umas lagrimas que eu ainda tinha no coração, e só podia choral-as, vendo minha filha!... Foi minha filha que salvou o rei...
—Vamos, que eu ouço tropel de cavallos na calçada da Graça...—disse Roque da Cunha—Conhecer-te-hiam?..
—É impossivel...
Cavalgaram, e deram de esporas. Na assomada de um dos outeiros de Alvalade pararam, e olharam na direcção de Lisboa. Ninguem os seguia. Era uma cavalhada de campinos, que voltavam da procissão do Triumpho, e recolhiam aos seus cazaes.
[XX]
Diogo Soares, previsto e diligentissimo em proporcionar aos assassinos enviados os meios de facil fugida, mandara uma chalupa do porto do Ferrol para os receber na barra de Lisboa; mas o portador, que por terra trouxera o aviso ao mercador Simão Serges, não o encontrando no dia 19 de junho, segundo as ordens que trazia, foi na noite de 20 a Passo d'Arcos fazer signal de erguerem ancora aos da chalupa. Simão Serges, áquella hora em que o buscavam, temeroso do resultado da tentativa, passara o Tejo, e esperava em Aldeia Gallega a noticia das occorrencias. O manuscripto, que nos esclarece as escuridades da historia, diz a tal respeito: «N'este tempo estava Roque da Cunha com os cavallos esperando-o ao Postigo da Graça, onde foi ter com elle Domingos Leite, e que lhe contou o que passára; e é de saber que na mesma tarde foi visto em Passo d'Arcos um barco longo de Castella, e que havendo descuido em ir a elle de noute, fugiu este, e desappareceu, e os dois foram por terra.»