Communicou Roque á Junta dos fidalgos, que Domingos Leite resolvêra voltar a Lisboa e matar o rei, face a face, ou á traição, consoante se lhe occasionasse o ensejo; mas tirou a partido que ninguem se intenderia com elle sobre tal determinação, porque a sua honra se queria desligada de compromissos politicos, visto que se desaffrontava a si e não a Filippe IV nem aos fidalgos de sua parcialidade.

Riram da honra do plebeu nobilitado com a commenda de Castella; mas acceitaram a clausula como coisa de todo o ponto indifferente. A Juncta chamada da Inconfidencia deu dois mil cruzados ao interprete de Domingos Leite e renovou as ordens ao marquez de Molinguen. O pai de Angela nem d'esta feita nem da outra soubera que Roque da Cunha recebêra dinheiro; e, por que lh'o via em abundancia, suppunha-lh'o de seus salarios e liberalidades de D. Vicencia.

No dia 18 de julho sahiram de Madrid, caminho da fronteira.

Escutemos o chronista-mór do reino, fr. Francisco Brandão: «Ha muito para reparar na força do destino que chamava Domingos Leite... Depois que sahiu de Madrid entrou logo em desconfiança do companheiro, presumindo que o havia de entregar, como por vezes lhe disse no caminho, declarando que sonhára uma d'aquellas noites que elle o entregava, e se via mandar fazer em quartos; e chegou a tanto a suspeita que tinha que, uma das vezes, se poz de joelhos diante de Roque da Cunha, e, abraçando-o pelos pés, lhe rogou encarecidamente o não quizesse entregar á justiça. Estando em Badajoz na estalagem, entrou uma menina de pouca edade, e pondo os olhos em ambos, lhes disse: Uno de vos outros és traidor. E apontando em particular para o Cunha, disse: Tu tienes ojos de traidor!... Reparou logo o Leite, nas palavras, e com o annuncio d'ella renovou ao companheiro a presumpção que d'elle trazia, e continuou com a supplica de que lhe fosse fiel. Grande cegueira—prosegue Brandão—que, tendo as presumpções tão vivas, não melhorasse partido, sendo-lhe facil!..»[10]

Se prestamos mediana fé á perspicacia da mocinha de Badajoz que lia a traição nos olhos de Roque da Cunha, facilmente cremos que o traidor, a relanços, se temeu das suspeitas de Domingos Leite, em termos de velar as noites com medo do punhal e da cravina que o companheiro cuidadosamente aconchegava do leito.

Ás vezes era Roque da Cunha quem se prostrava aos pés da victima exorando-lhe que não suspeitasse de sua lealdade, ou então o repulsasse de si como ao mais abjecto scelerado. «Grandes foram as cautelas de Cunha—confirma fr. Francisco Brandão—para assegurar bom animo ao companheiro, receando que lhe fugisse a preza, e não quizesse entrar em Portugal, ou depois de entrado, se voltasse para Castella sem passar a Lisboa; e não foram de menos consideração as cautelas que teve para se assegurar d'elle, receoso de que o matasse com as suspeitas.[11]

Á quem de Badajoz sahiram da estrada real; e por veredas desfrequentadas e conhecidas de Roque, venceram grande espaço, para se desencontrarem das tropas portuguezas, em um dia e noite. No termo da violenta jornada de oitenta e cinco leguas em dez dias, o cavallo de Domingos Leite abrira dos peitos, e na aldeia, onde se albergaram, não houve modo de allugar cavalgadura. Notou Roque da Cunha ao companheiro que o presistirem alli, sem esperanças de remedio, era perder tempo, e talvez perigoso; que elle iria adiante agenciar cavallo nos Pegoens, e lh'o enviaria, a não querer o seu amigo ir n'essa diligencia, e enviar-lh'o.

—E para que vá mais leve, e menos sugeito a que me roubem, fica tu com os meus alforges, onde estão quatro mil cruzados...—ajuntou Roque.

—Oh!—exclamou Domingos Leite gracejando—Ninguem dirá que vaes do desterro! Parece que chegas de governar a India! Quatro mil cruzados!...