—Ahi t'os deixo como refens...

—Mal de mim se este dinheiro fosse o abono da tua lealdade, Roque! Se tens tenção de me atraiçoar, leva-o, e atraiçoa-me, para que me não taxem de ladrão quando me prenderem.

Roque fez um esgar de fingida magoa ou de terror de sua mesma ignominia. Domingos Leite interpretou a primeira supposição, e emendou as palavras duras com tocar-lhe amoravelmente no rosto, dizendo-lhe:

—É brincadeira, meu homem! Vai, leva ou deixa o dinheiro, como quizeres; manda-me o cavallo, e espera por mim na Povoa de S. Martinho, d'aqui cinco leguas. Levas-me de avanço apenas algumas horas, se ámanhã cedo me mandares o cavallo, e elle não fôr aleijado. Devo lá chegar por noite, se a estrada real estiver desembaraçada de tropa; senão terei de dar grandes voltas.

Roque abriu o alforge, contou cem mil reis e disse:

—Levo commigo este dinheiro, porque talvez tenha de comprar o teu cavallo, se m'o não quizerem alugar; e quem sabe se o meu tambem vai a terra, que hontem já o não sentia entre os acicates...

—Não deixes o dinheiro!—instou Leite Pereira.

—Já te disse que receio ser roubado. Que me faz deixal-o ou leval-o? Adeus, até ámanhã.

Abraçaram-se. Domingos Leite olhou-o muito de fito, e disse-lhe:

—Não me vendas... visto que estás rico!