—Andam soldados na estrada real?—perguntou Leite.
—Que eu saiba, não, senhor.
Reparou na precaução o cavalleiro; e não viu a voragem. Cada vez nos encostamos com melhor juizo ao dizer de fr. Francisco Brandão: Ha muito para reparar na força do destino que o chamava.
Suggeriu-se-lhe de novo o pensamento da perfidia; quedou-se alguns segundos luctando com o palpite de retroceder; nada obstante, seguiu avante, dizendo entre si:
—Que pensaria de mim Roque da Cunha se está innocente nas minhas suspeitas, e eu me voltasse a Hespanha com o seu dinheiro!...
Quando elle assim lidava em conjecturas que se destruiam, já Roque da Cunha estava em Lisboa, e no Paço da Ribeira. Pediu ao corregedor Pero Fernandes Monteiro, que sahia da corte, o apresentasse a el-rei para negocio da maior urgencia. D. João IV, ouvindo o nome do seu recente espia em Madrid, e recordando o recado de Roque da Cunha, transmittido pelo jesuita, quanto a salvar-lhe a vida, teve grande alvoroço com a nova, e mandou-o entrar. Poz-se em joelhos o delactor, começando por implorar o perdão de seus delictos, e confessando que tivera parte em uma tentativa contra a vida de sua magestade; porém, accrescentava que se el-rei, seu senhor, lhe não perdoasse, morreria contente, levando a Deus sua alma purificada de remorsos.
Sorriu D. João IV dos remorsos de Roque da Cunha, e disse gravemente:
—Estás perdoado. Dize o que tens a dizer, e levanta-te.
Referiu Roque a tentativa de regicidio em 20 de junho, com os pormenores sabidos do leitor, e aggravou o crime de Domingos Leite com a reincidencia no intento que o trazia a Portugal.
Escutou-o D. João com torvo aspecto. Turturava-o a situação de Maria Isabel. Passou-lhe talvez no espirito o pensamento de encarregar o infame delactor de matar, em segredo, Domingos Leite, e salvar assim a viuva e a filha da ignominia que do alto da forca baixaria sobre ellas. Mas não era Roque o homem amoldado á observancia do mysterio que tal acto requeria.