Mandou recolher o espia a um quarto baixo do paço, e ordenou que viessem á sua presença o fidalgo mais possante de sua côrte, Luiz da Silva Telles, e outro não menos destemido D. Francisco de Faro e Noronha, conde de Odemira. Contou-lhes o que passára com Roque da Cunha, e enviou-os a prender Domingos Leite Pereira onde o denunciante os conduzisse.

Ao mesmo tempo, ordenava a Antonio Cavide que sem perda de tempo fizesse entrar em uma caleça Maria Isabel e sua filha, e elle mesmo as conduzisse a um mosteiro de Tras-os-Montes, á escolha do seu secretario; que nem palavra lhes dissesse a respeito de Domingos Leite, e se desculpasse com a ignorancia dos motivos que el-rei tivera para dar semelhante ordem.

Maria Isabel e Angela colhiam, ao empardecer do dia, nos canteiros do seu jardim de Alcantara, um ramilhete de flores, quando o escudeiro annunciou a chegada do secretario de estado, e a recommendação de se apressar S. Senhoria a recebel-o.

Assustou-se a dama. Sempre que este homem a procurava soavam-lhe rebates de medo no inquieto coração. Tinham-lhe dito que Cavide lisongeava o rei, alcofando-lhe novas amantes quando o sentia fatigado das antigas. Esta seria a causa da repugnancia. Angela, essa então odiava-o de instincto, sem saber precisar aquelle rancor tão desnatural em sua edade.

O estranho aspeito de Cavide incutia maior temor em Maria Isabel.

—Minha senhora—disse elle entre melancolico e solemne—ordena el-rei, meu amo e senhor, que vossa senhoria e sua filha se aprestem activamente para ao romper da manhã sahirem de Lisboa...

—Para onde?!—interrompeu Maria Isabel.

—Para um mosteiro na provincia de Traz-os-Montes.

—Mosteiro!...

—Sim, senhora minha.