—Não quero!—bradou a dama.

Sorriu-se o fidalgo, e disse:

—Quer el-rei, nosso senhor.

—Mas que fiz eu? por que me manda el-rei para um convento?

—Ignoro. Segredos de sua magestade. Não discutamos inutilmente: é sacrilegio duvidar da prudencia de sua magestade nas ordens que se dignou transmittir-lhe. Senhora D. Maria Isabel, ás tres horas da manhã está o meu coche á porta de vossa senhoria, e fora de portas estará a caleça que nos hade levar onde el-rei ordena. Não posso deter-me, salvo se tem ordens a dar-me...

A esposa de Domingos Leite abraçou-se na filha em pranto desfeito, ao passo que o secretario se retirava a passo magestoso, dignando-se saudar d'entre o reposteiro a senhora que não o via.

Quando ella ás onze horas d'aquella noite de 30 de julho enfardelava com as lacrimosas criadas os seus fatos e de sua filha nos bahús, entrava Domingos Leite Pereira na Povoa de S. Martinho, áquem do Tejo, trez leguas distante de Lisboa.

Conforme a senha concertada, deu trez pancadas na porta da estalagem com a coronha da cravina. Desceu Roque da Cunha embrulhado em um gibão e em menores, affectando sahir da cama. Abriu a porta mansamente, e disse:

—Eu já não te esperava...

—Tambem eu cuidei que não chegaria hoje... O teu cavallo vai fazer companhia ao meu na immortalidade das cavalgaduras heroicas e pôdres... Quem está por aqui na locanda?