—Ninguem afora um ou dois vilões desconhecidos. Dá cá as redeas, que eu recolho o cavallo.

E dizendo, tirou pela besta, afim de distancear o coldre das pistolas do alcance de Domingos Leite, e servir-se d'ellas em conjuntura apertada.

Seguia Domingos Leite o cavallo; e, no momento de entrar na cavallariça, frouxamente allumiada, sentiu-se agarrado de sobresalto. Eram os braços de ferro de Luiz Telles que o cingiam do peito ás costas, emquanto o conde de Odemira lhe arrancava das mãos a caravina.

Leite nem levemente escabujou nas garras dos dois fidalgos. Cravou os olhos no rosto de Roque da Cunha, e disse:

—Agradeço-te esta morte, ó infame. Todo o infeliz que chegou a conhecer n'este mundo um homem como tu, deve desejar morrer. Podem largar-me, que eu não lhes fujo nem lhes resisto, sr. Luiz Telles e sr. conde.

D'ahi a momentos, á porta da estalagem chegava uma escolta de paisanos armados. Domingos Leite foi conduzido ao centro da escolta pelo conde de Odemira, que, voltado ao preso, disse:

—Se tentar fugir, sr. Leite, é espingardeado.

E com grande silencio o levaram a Lisboa, diz o manuscripto.

Silencio comprehensivel! Os dois fidalgos que, por ordem de el-rei, o apertaram nas roscas de aço dos seus musculos, sabiam que a mulher d'aquelle homem, inevitavelmente levado ao patibulo, era amante de D. João IV. A sua abjecta mensagem de esbirros ainda lhes consentia que sentissem o opprobrio d'ella. Roque, na saga da escolta, não podemos, não poderá ninguem esgaravatar que herpes lhe mordiam a consciencia. Homens assim nem o Creador sabe decifrar o enigma que elles são. Querem que Deus deva saber o que fez. Saberá.

Domingos Leite era o unico do prestito sinistro que levava o rosto nobremente erguido, e parecia olhar para o ceo pedindo ás estrellas a luz da fé, para que na morte lhe não faltasse a esperança de outra existencia.