Entrou em Lisboa na madrugada de 31 de julho. Levaram-no ao palacio do conde de Odemira, onde respondeu ao primeiro interrogatorio com a altivez nunca vista em reo. Confessou tudo, sem nunca balbuciar o nome da mulher. Matava el-rei, disse elle, em desaggravo da sua honra.

Nem um instante de quebranto, de pavor ou de supplica! Entrou na casa do conde de Odemira, diz o doutor fr. Francisco Brandão no opusculo referido, com um desafogo tal que parecia mais alvitrista dos contrabandos d'el-rei D. João que cumplice dos maiores servidores do rei de Castella. Com esta mesma segurança de animo se portou em todos os mais lanços em que foi examinado; tendo só de bem confirmar sempre na confissão com o companheiro que o deu á prisão, e com a primeira confissão que uma vez lhe ouviram; de maneira que correndo por todo o exame e rigor das interrogações que o direito dispõe não faltou nunca na mesma rectificação de quanto sem as maiores violencias havia confessado; imperfeita virtude no maior defeito!

Em um d'esses interrogatorios, sem as maiores violencias (quer dizer que a tortura não foi das mais requintadas) fizeram-lhe esta pergunta:

—Porque não atiraste a el-rei, tendo a escupeta apontada sobre o sagrado corpo de sua magestade?

—Porque tive uma visão santissima: foi a mão de um anjo do ceo, que me levou para si os olhos e a alma.

D'esta resposta formaram os fantasistas da historia uma parvoiçada de aureolas luzentissimas que esconderam aos olhos do regicida o etherio corpo de D. João de Bragança.

Transferido da caza do conde para o segredo do Limoeiro, divulgou-se em Lisboa a noticia.

As turbas correram á porta do carcere pedindo que lhe entregassem Domingos Leite Pereira para o espedaçarem. Acudiram os ministros, clamando ao povo que o prezo era apenas reo de morte na pessoa do padre Luiz da Silveira, e conseguiram debandar a chusma dos carrascos voluntarios, ebrios de civismo.

Bernardo, quando soube da captura de seu amo, abordou-se ao cajado de peregrino, e foi caminho de Guimarães dizer a Antonio Leite que seu filho morria em desaffronta de sua honra.

Ao fim de 16 dias de prisão, Domingos Leite foi sentenciado.