«De todos meus criados tenho inteira satisfacam por me averem servido com lialdade zelo, e trabalho principalmente os officiaes de minha caza, Mordo mor (Mordomo-mor) Estrebeiro mor, cappelão mor, Porteiro mor, e os mais, que aqui hei por expreços, e declarados, e peço ao Princepe meu filho se sirva delles porque o faram como eu sempre experementey. O conde Camareiro mor do meu concelho de Estado me tem servido nesta doença como nas mais comtodo cudado e trabalho asim mando ao Princepe meu filho lhe faca toda a honra e Estimação que mereceo e mando se lhe entregue mil cruzados para repartir com os Mocos da camara que me cervirão nesta doença. Declaro que governei este Reyno com toda a Justiça comforme entendi e se herrei em alguma de minhas acçoens como homem foi sempre cudadozo qual hera o melhor que se devia obrar.

«Tenho declarado a Raynha hum pessoa para Ayo do Principe que ella nomeará quando lhe parecer.

«Tenho muitos papeis tocantes ao governo d'este Reyno, e conhesimento de meus vasalos que podem servir á Raynha e ao Principe e porque da publicação delles pode rezultar perjuizo amuitas pessoas mando que o Bispo meu confessor e Antonio Cabide fassão inventario delles, e os entreguem a Rainha.

«Fuy muito corioso da minha livraria da muzica, e asim para que se conserve lhe deixo corenta mil reis todos os annos para fabrica, e mando que esteja sempre na caza em que está, e que se empetre hum breve do Papa com excumunhão reservada para que senão trezlade digo tire d'ella Livro nem papel nem se trezlade, e nomeio para Biblioticario della a Antonio Barbosa com cecenta mil reis de ordenado, e por Ajudante a Domingos do Vale seu irmão, e faltando estas pessoas se hirão nomeando outras para sempre estes cento e corenta mil reis (que) fara a Rainha logo assentar no melhor parado da minha fazenda declarando se não tire nunca das rendas da capella.

«A minha capella mando se acabe do mesmo modo que eu tinha ordenado com Santuario Retabulo e çacrario e porque Antonio Cabide sabe o modo com que eu queria isto o deixo por superintendente desta obra.

«Tenho mandado a Holanda empremir as obras de João Soares Rabello da qual Impresão lhe faço merce rezervando para aminha Livraria vinte Livros e os outros espalhara por Italia e Castela.[14]

«E como na observancia da Justiça consiste a conservação do Reyno declaro que os Governadores das armas não terão nas Justiças mais jurisdição que a que tem os capitaens de Africa. Fim do testamento.»

Quem estiver de pachorra confronte este modêlo de supina ignorancia dos rudimentos da arte de escrever, com o estylo garrafal e engalanado do secretario de estado Pedro Vieira da Silva. E depois, se poder, acredite em D. Antonio Caetano de Sousa (Hist. Genealog. da Casa Real, tomo VII, pag. 240) quando lhe diz que D. João IV ditara a Antonio Cavide a maior parte ou todas as Relaçoens anonymas das campanhas entre Hespanha e Portugal, impressas entre 1641 e 1643, com o fim de ter contentes os animos dos seus vassalos, e satisfeitos com os bons successos de suas armas. O linhagista da casa de Bragança não satisfez o seu encarecimento servil com menos de inventar um litterato no fragueiro monteador de veados em Villa Viçosa.

Convem notar que o redactor do testamento procedeu sensatamente expungindo dos regios apontamentos a clauzula de impetrar do Papa excommunhão para quem trasladasse algum livro da Bibliotheca da musica. Villão espirito e rancorosa alma que ainda almejavam sobreviver-se no2 tumulo! D'essa estupenda biblioteca, no dia 1 de novembro de 1755, não deixou o terremoto sequer um livro!

O autographo de D. João IV, aqui trasladado, pertenceu á livraria do ministro de estado Fernando Luiz Pereira de Sousa Barradas.