Não obstante, a felicidade do antigo aprendiz de boticario era dardejada pela inveja disfarçada no epigramma.

Quando Maria Isabel apparecia nas festividades de igreja, egualando-se nas pompas ás mais ricas fidalgas, rumorejavam-se facecias que eram victoriadas com frouxos de riso.

A corrupção da epoca vestia-se de gala nas mulheres, Maria Isabel, porque sabia que as fidalgas a remoqueavam, de dia para dia dava novo pasto á satyra. Arrastava saias golpeadas de mosqueta; corpetes recamados de oiro; chapins estrellados de prata e perolas; fraldelhins agrinaldados de rubis. Sahia em liteira sua, das mais adamascadas e pintadas, com lacaios bizarramente vestidos.

E, por sobre tudo isto, realçava como engodo ao despeito aquella esplendorosa beldade de Maria Isabel, a quem as senhoras dos palacios, arruinados como a honra propria, chamavam a Traga-malhas tanoeira.

N'este em meio, Domingos Leite Pereira, advertido pelo marquez de Gouveia que posesse côbro ao luxo da mulher, respondeu que era bastantemente rico...

—E bastantemente inepto, sr. Leite—acudiu o mordomo-mór—Quando um marido assim arreia sua mulher para a exhibir nos adros das igrejas, os outros podem suspeitar que elle a veste, á guiza de moira da procissão, para a mostrar bem adubada e apetitosa á cupidez dos outros.

—Se o sr. marquez pensasse como esses vilãos que assim pensam, eu sahiria da sua casa, com a magua de o não poder reptar ao baixo ponto em que está a honra dos plebeus—replicou Domingos Leite com altivez.

—Eu não penso assim—obviou o fidalgo—mas sei como os outros pensam.

—Quem são os outros? diz-m'o V. Ex.ª?

—Não denuncio, sr. Leite; advirto-o e mais nada. Vossa mercê conhece os livros; mas desconhece os homens. Tem grandes espiritos; mas possue imperfeitissima rasão. Guarde isto que lhe digo; e oxalá que eu nunca lh'o recorde.