—Sr. marquez!—volveu o secretario com vehemente arrebatamento—se minha mulher não é a honesta esposa que eu creio, diga-m'o; peço a V. Ex.ª pela sorte de suas filhas!

—Nada sei...—balbuciou o marquez, refreando a perturbação.

—V. Ex.ª está indeciso!—sobreveio Domingos Leite agitadissimo.

—Não seja louco!—objectou o velho, refazendo-se de apparente serenidade—Nada sei de sua mulher que o desdoure.

E, rematando o dialogo, o mordomo-mór disse que el-rei o esperava para o despacho.

Esta acerba palestra instillou peçonha no coração de Domingos Leite.

Havia um só homem e esse o mais indigno de todos com quem o marido de Maria Isabel desafogava a plenos pulmões: era Roque da Cunha, que, ao tempo, exercia um officio dos mais grados entre os aguasis de uma das corregedorias criminaes da corte, em recompensa de haver testemunhado em 1641 contra o general Mathias de Albuquerque, por industria e compra dos inimigos d'aquelle insigne cabo de guerra. E, bem que Mathias de Albuquerque provasse sua innocencia, D. João IV, tão presador dos denunciantes como dos bons e fieis generaes, não retirou a Roque da Cunha a paga da aleivosia. Parece que antevira a urgente necessidade d'aquelle homem...

Abriu sua alma Domingos Leite ao assassino de Pedro Barbosa, referindo-lhe o que passara com o marquez de Gouvêa, e terminando por lhe perguntar se ouvira qualquer calumnia contra a honestidade de sua mulher.

—Ouvi, respondeu friamente Roque.

—O que?! acudiu o outro sobresaltado e livido.