—Ouvi que antes de ser tua mulher tivera outros amores.

—Com quem? bradou arquejante Domingos Leite.

—Não perguntei. O calumniador disse a calumnia, e adormeceu na rua dos Romulares com dois bofetões puxados á sustancia, que lhe dei nos indignos focinhos.

—Nunca m'o disseste...

—Não sou echo de calumniadores, amigo Leite. Encarecer-te a minha amisade com a noticia dos bofetões, seria dar importancia a bagatellas. Se eu estivesse em sitio onde podesse arrancar-lhe a lingua, mandava-t'a embrulhada em uma folha de alface com a mesma facilidade com que t'o digo.

—Mas conheces esse homem?

—Conheci ha muitos annos: era parente de um official, ou quem quer que fosse de Miguel de Vasconcellos. Não lhe sei o nome, nem o tornei a ver desde ha dois annos. Morreria elle?... Se o matei com o primeiro murro, era escusado pregar-lhe o segundo...

Esta revelação attribulou Domingos Leite por tanta maneira, que Roque da Cunha chacoteava a irracional afflicção do seu amigo, chegando a dizer-lhe brutalmente:

—Homem! se este caso te faz tamanha mossa, parece que estás mais inclinado do que eu a acreditar a calumnia do tal que eu esmurracei! Em fim, tu lá sabes... concluiu faceiramente.

—Deixa-me... Olha que me estás fazendo perder a razão! atalhou o desvairado moço. Vê se me encontras esse homem, Roque! Pede-t'o a minha honra! dou-te por esse homem metade do que tenho! Se o tu não achares, ninguem o achará... Olha que me salvas, se m'o trazes! salvas o teu maior amigo!