—Irei procural-o no inferno, se o não achar cá em cimo. Confia nos quadrilheiros de todos os bairros de Lisboa. Saibamos: que queres tu do homem?

—O nome do amante que teve Maria Isabel antes de ser minha mulher.

—Então é coisa averiguada que teve? interpellou despejada, mas rasoavelmente o cynico.

—Perguntas-m'o!... balbuciou Leite Pereira.

—Não t'o pergunto: és tu que m'o dizes, homem! Seja como for. Apparecendo vivo o sujeito, queres interrogal-o, ou fias de mim desembuchar-lhe tudo que elle souber?

—Fio de ti a minha honra, que ha de sahir limpa d'essa prova, ou hei de lavar o ferrete com o sangue de alguem.

—Até mais ver, Domingos Leite. Dá-me tres dias e tres noutes. D'aqui até lá não tujas palavra que possa espantar a caça, percebes? Olha que as mulheres tem faro de tres narizes, quando não podem apresentar folha corrida ao almotacé do bairro da virtude.

Nos dias subsequentes, o secretario do marquez de Gouvêa, pretextando extraordinarios trabalhos, apenas pernoitava em casa; e, apesar de esforçada dissimulação, denunciou a Maria Isabel torvado animo e sobresaltos no dormitar. Interrogava-o ella amorosamente e com uns abalos de susto. Elle attribuia o seu dessocego a receios da causa da patria, visto que o exercito do Alemtejo soffria numerosas deserções, e perigava á mingua de generaes. No entanto, a esposa decifrara desgraça eminente em umas lagrimas que lhe vira toldar os olhos fitos no rosto angelico da filhinha adormecida. E perguntando-lhe então porque chorava, elle respondera que chorava em nome da creança a desventura de ter nascido.

Devoravam-no entretanto impaciencias de ouvir Roque da Cunha.

Chegou o mensageiro ao escriptorio de Domingos Leite, no palacio do conselheiro de estado, terminado o praso prescripto, e começou dizendo, com solemnidade e tristeza, coisas singulares e raras no seu caracter: