—Achei-o. Morava em Alfama, e tem loja de mercearia.

—Bem! exclamou Leite Pereira com um tregeito de ficticia alegria que poderia egualmente significar a angustia de uma noticia dilacerante.—Que diz elle?

—Vamos de passo. Indaguei primeiro quem tinham sido os officiaes da escrivaninha de Miguel de Vasconcellos. Nomearam-m'os todos; e eu, logo que ouvi o nome de um, recordei-me de que o homem em quem eu dera os cachações era parente do tal. Ora este tal, que foi muito da confiança do ministro, conhecia-o eu como as minhas mãos. Fui ter com elle, e sem detença soube que o seu parente era tendeiro. Isto no primeiro dia. No segundo, mandei-o chamar por um quadrilheiro á corregedoria. Carreguei a sêlha, e perguntei-o sobre o que havia dito a respeito da mulher do escrivão do civel, Domingos Leite Pereira, no anno de 1643, na praça dos Romulares. Como elle fingisse estar esquecido, lembrei-lhe os dois murros, e ajudei-lhe a memoria, promettendo-lhe mandal-o para o Limoeiro até se lembrar. Confessou então que, estando em um jantar de annos, onde o vinho sobejava e minguava o juizo, ouvira dizer a um dos do banquete, fallando-se no teu casamento, que elle conhecia um sujeito que, se não tivesse coroa rapada, a Maria Traga-Malhas e os dez mil cruzados não seriam para ti. E que mais? perguntei ao homem que engulira o principal. Não sei mais nada, respondeu elle. Chamei um aguazil e disse-lhe que levasse aquelle esquecidiço ao Limoeiro, e o trouxesse quando elle tivesse mais miudas lembranças do que ouviu n'um tal jantar. Deixou-se levar, e foi posto no segredo, e prohibido de fallar ou escrever a alguem. Segundo dia. Agora o terceiro, que é hoje. Ás duas da tarde pediu que o trouxessem á corregedoria. Recuperara a memoria. O homem que tinha coroa rapada, e se gabava de te disputar a noiva e os dez mil cruzados, era propriamente o primo d'elle, que eu conhecera official de Miguel de Vasconcellos.

—Como se chamava? atalhou Domingos Leite com os olhos abraseados e a respiração a trancos.

—Chamava-se o padre Luiz da Silveira.

—O que?... dize! Luiz da Silveira?! Esse padre foi o mestre de Maria Isabel... Basta!... Disseste tudo...—rugia Domingos Leite, regirando como fera prêza, de um lado a outro da saleta, e tomando o chapêo, apertou as mãos do informador, rugindo-lhe como em segredo:—Se eu precisar de ti, não me desampares... Bem sabes que eu só chamo amigo a quem me matar ou me restituir a honra n'esta horrivel conjunctura. Olha, escuta-me, Roque... Maria Isabel, antes de ser minha mulher, foi... Oh! como é atroz esta certeza!...

E, batendo com os punhos nas fontes, ringia os dentes, e istriavam-se-lhe os olhos de filamentos sanguinosos.

N'este comenos, ouviram-se os passos mesurados do marquez mordomo-mór no salão contiguo. Os dois amigos evadiram-se pressurosos escada abaixo.


V

O padre Luiz da Silveira viera da Alhandra para Lisboa, chamado pela fama de prégador, em 1635, tendo vinte e quatro annos de edade.