A marqueza de Montalvão deu-lhe capellania em sua casa, e accesso á estima dos fidalgos mais parciaes do rei castelhano. Os sermões de padre Luiz degeneravam, pelo ordinario, em arengas politicas em prol da legitimidade dos Filippes, e invectivas ironicas adversas aos sebastianistas. N'aquelle tempo, tanto os esperançados no vencido de Alcacer-kibir, como os imaginativos de rei portuguez, eram chanceados de sebastianistas.
Em casa da marqueza beijara o padre a mão do arcebispo de Braga, D. Sebastião de Mattos e Noronha, um dos mais esturrados sustentaculos do dominio hespanhol, e tão execrado dos portuguezes como Miguel de Vasconcellos.
Affeiçoou-se o arcebispo ao capellão da marqueza, ouvindo-o prégar no anniversario de Filippe IV, de Castella, e de moto proprio lhe offereceu o emprego honroso e lucrativo de official do secretario de Vasconcellos.
N'esta posição, e com promessas de boa prebenda na Sé lisbonense, o sobresaltou a revolução de 1640. Dormia elle ainda o somno do justo, quando o ministro era espostejado no terreiro do Paço da Ribeira. A consciencia remordia-o já com os delictos oratorios, já com os aggravos feitos aos seus compatriotas, sob a egide de ministro despota. Escondeu-se, portanto, no palacio do arcebispo de Braga, que os conjurados teriam morto, se rogos de D. Miguel de Almeida o não salvassem, e se D. João IV, receoso do clero e de Roma, lhe não desse parte no governo provisorio, defraudando de tamanha honra fidalgos que jogaram a cabeça, proclamando-o.
O arcebispo, inflexivel á indulgencia do rei, urdiu, travado com outros da sua estofa, a malograda contra-revolução, a fim de reconquistar a graça de Filippe IV.
Carteando-se com o conde-duque de Olivares, confiou a mensagem da correspondencia ao seu commensal, padre Luiz da Silveira, que tres vezes desempenhara destramente a perigosa empreza, disfarçado em almocreve.
Planeada a tentativa dos conjurados, de accordo com a Junta de Madrid, chamada da Intelligencia secreta, padre Luiz, ou por que desconfiasse do bom exito, ou por que um leicenço de infamia lhe apojasse na alma, ou—e seria o mais improvavel—porque o patriotismo o esporeasse, resolveu delatar os conspiradores a D. João IV.
Outra versão correu explicando a perfidia do padre. Disseram que elle, a fim de alliciar um antigo parceiro, communicara o segredo da conjuração a Luiz Pereira de Barros, que tambem servira Miguel de Vasconcellos, com grande applauso e confiança do ministro; porém Luiz de Barros, como a esse tempo já fosse contador da fazenda, a revellação do familiar do arcebispo recebeu-a sem enthusiasmo, promettendo, todavia, reflectir antes de se alistar nos conjurados. Mas, como quer que o clerigo desconfiasse que Pereira de Barros denunciasse a conspiração, deu-se elle pressa na precedencia da protervia e da paga. Não se illudira, por que D. João IV recebera os dois delatores no mesmo dia, e os enviara conjunctamente ao seu ministro Francisco de Lucena, e este os mandara ao procurador geral da coroa, Thomé Pinheiro da Veiga.
Simultaneamente, novas denuncias asseveraram a do confidente do arcebispo, umas espontaneas, outras arrancadas pela tortura. Dois capitães, Diogo de Brito e Belchior Corrêa de França, postos a tormento, confessaram os nomes dos cumplices; não assim o opulento mercador Pedro de Baeça que, desde o cavalête, em que lhe quebraram os ossos, até o verdugo bamboar-lhe o corpo dependurado, apenas fallou para offerecer trinta mil cruzados pela vida, mostrando até final, como bom mercador, que a vida tambem era mercadoria.
Não podemos attribuir especialmente á delação do clerigo o malôgro da revolta: tão obcecados de medo de Castella tremiam os conspiradores, que não viram o carrasco em casa, nem se arrecearam da irreflectida escolha dos cumplices. No entanto, os pormenores da revolução, que devia estalar no dia 5 de agosto de 1641, começando pelo incendio do Paço da Ribeira e assasinio do monarcha, deu-os o padre Luiz, taes quaes os sabia da confidencia plenissima do arcebispo de Braga.