Em livro mais de molde a demoradas exhumações historicas, darei ao leitor curiosa e ampliada noticia d'este prelado, definido pelo Manuelinho de Evora.
A nota, que já se vae delongando, não é despecienda como amostra do genero tão fallado como desconhecido que usaram os fermentadores da restauração, a despeito da espionagem que rastreava os audacissimos secretarios do Manuelinho.
[Nota 18.ª]
Provavelmente, n'este anno de 1647, já Philippe IV e os seus ministros conheciam o timido animo do rei de Portugal, que mais covardemente se manifestou em 1650, depois da paz de Westphalia. N'este anno, pois, encarregou D. João IV o padre Antonio Vieira de negociar desde Roma o casamento do principe D. Theodosio com a infanta de Hespanha, dando esse enlace como caução unica e segura á fuzão iberica; por quanto, não tendo Philippe IV filho varão, áquelle tempo, succediam no throno de Portugal o principe portuguez e a princeza hespanhola; acontecendo, porém, a superveniencia de filho varão, reinariam em distinctos reinos, com alliança offensiva e defensiva. Além d'isso, dado que o rei de Hespanha teimasse em negar a legitimidade de D. João IV, este abdicaria no filho e na infanta. O padre Vieira tractou o negocio com os jesuitas castelhanos, em Roma, resalvando que Lisboa se constituisse a capital dos dois reinos fundidos em uma monarchia grandiosa. A proposta abjecta foi desprezada em Madrid. D. João IV, dando assim o pulso ao exame do poderoso inimigo, revelava quão depauperado lhe girava o sangue nas veias. E pelo que respeita ao jesuita medianeiro de tamanha protervia, teve de fugir de Roma onde o espiavam os sicarios do embaixador hespanhol. Judiciosamente escreve o sr. Manuel Pinheiro Chagas, relatando os pormenores d'este vilipendio: «Lembraremos ao leitor que n'isto se prova que se, depois da restauração de Portugal, houve algum traidor que, por interesses pessoaes ou de familia, projectasse vender á Hespanha a independencia da patria, esse traidor foi... D. João IV.» Historia de Portugal, tomo 6, pagina 106 e seguintes.
[Nota 19.ª]
Narra fr. Claudio da Conceição, nomeando os filhos de D. João IV: «Teve fóra do matrimonio a senhora D. Maria, nascida a 31 de abril de 1644, de uma senhora limpa de sangue, que entrando depois no convento de Chellas professou a vida religiosa. Educada em casa do secretario de Estado Antonio de Cavide, entrou a 25 de março de 1650 no Mosteiro de Sancta Thereza de Jesus, das Carmelitas Descalças de Carnide, por ordem de el-rei seu pae a receber as instrucções da Madre Michaella Margarida de Sancta Anna, filha do imperador Mathias, e parenta do mesmo senhor rei D. João IV,[16] fundadora do dito mosteiro de Carnide em 1612, sendo vinte e dois annos successivos priora. Estimou el-rei muito esta filha, o que assás prova a seguinte carta que lhe escreveu antes de morrer: «Minha filha, foi Deus servido que a primeira vez que tendes carta minha, seja despedindo-me de vós, dando-vos a minha benção acompanhada de Deus que fique comvosco, e lembrai-vos sempre de mim como eu o fio de vós. Escripta em Lisboa a 4 de novembro de 1656. Vosso pai, que fica com grande sentimento de vos não vêr.» (Traslada os legados do rei á filha; segue uma carta de D. Pedro, regente, á irmã; e prosegue na edificante biographia da virtuosa senhora). «A rainha D. Maria Francisca a foi visitar a Carnide, e lhe fez grandes honras merendando no seu apozento. A côrte lhe dava o tratamento de Alteza. Viveu sempre n'este mosteiro em habito de religiosa, ainda que era de materia mais fina. Propondo-se-lhe para esposo o duque de Cadaval com approvação regia, respondeu: que não sahiria da clausura senão em postas a tomar outro esposo, pois que já o tinha ha muito tempo»... Depois d'outros lanços assim piedosos, remata fr. Claudio: «Falleceu recebendo todos os sacramentos com summa edificação a 7 de fevereiro de 1693 quando contava quarenta e nove annos de edade» Gabinete Historico, Tomo IV, pag. 214 e seg.Da mãe de D. Maria não houve frade nem chronista que sequer nos contasse como lá se foi derretendo em lagrimas a vida da freira que o rei dera como esposa a Jesus, depois de se enfastiar d'ella como barregan.
[Nota 20.ª]
«O sr. rei D. João IV... vendo um dia meu pai que tinha a honra de ser seu trinchante mor com um Porpoint guarnecido com uma rendilha de prata, lhe disse: vindes mui bizarro D. Antonio!; mas nunca fui tão rico que podesse ter outro similhante. E assim era, porque sempre se vestiu de estamenha... E mandou que nenhum (vassallo) viesse ao Paço com os seus cabellos, por que elle os não conservava, e todos se tosquiaram». Carta de Luiz da Cunha ao Principe D. José.
[Nota 21.ª]
Esta allusão epigrammatica do christão novo requer illucidação necessaria aos leitores descuriosos de genealogias. No reinado d'el-rei D. Manoel veio a Portugal um rico mercador genovez, chamado João Francisco de Lafeta ou Lafetá. De amores com uma fidalga de nome Guiomar Freire, teve um filho illegitimo, e tambem teve uma cutilada legitima na cara, com que o brindou um parente da senhora namorada, e teve ainda outro filho de uma Judia fanqueira de Setubal, chamada Branca de Castro. É indeciso nos linhagistas se o successor de João Francisco era filho da fidalga, se da judia. É certo que o seu successor Agostinho de Lafeta administrou o vinculo que seu pai instituira, foi trinchante de el-rei D. João III, e casou com D. Maria de Tavora, filha de Ruy Lourenço de Tavora. Deste matrimonio nasceram dois filhos: João e Cosme. O primeiro casou com D. Antonia de Mello filha de Ruy Gomes de Azevedo, alcaide mor de Alemquer; o segundo casou na India com a filha de um advogado que lá chamavam por alcunha o conde da barba rapada. Os filhos d'este assignaram-se Tavoras, e os do segundo Lafetas. Emquanto o pae, cazando segunda vez com uma filha de Manuel de Mello, eivava de judaismo e melhor sangue ostrogodo, um filho de João Lafeta cazava com D. Maria de Vilhena, filha de Henriques Jacques de Magalhães, e D. Violante de Vilhena. D'este consorcio, procederam Christovão de Lafeta, que casou com sua prima D. Brites da Silva, filha do primeiro visconde de Fonte Arcada, e D. Violante de Vilhena que casou com Gonçalo Garcez Palha. D'estas ultimas allianças por diante, o appellido Lafeta é absorvido nos mais illustres das raças historicas, por modo que, no dizer de um genealogico de inexoravel critica, apenas haverá em Portugal trez familias tradicionaes que não estejam inquinadas do judaismo dos Lafetas genovezes, e da Branca de Castro, fanqueira de Setubal. Que lhes preste.