—Que modo de me tratar!—acudiu Maria—Tu que tens, Domingos? Que queres dizer-me? Podes fallar, que a tua filha não entende injurias, se m'as queres dizer...

A minha filha....—atalhou elle casquinando um froixo de riso por entre os dentes cerrados; e logo, arrugando a testa e alteando a cabeça com intimativa, bradou:

—Não me percebe!?

E, arrancando-lhe a filha do collo, sahiu com ella pendente dos braços, fechando a porta da ante-camara para que a mãe a não seguisse em gritos.

A creança, apesar do repellão, olhava para o pae com a mesma jovialidade. Domingos Leite, que parecia buscar a quem entregasse a menina, parou de repente, aconchegou-a do peito, beijou-a, lavou-a de lagrimas, e, soluçando no seio d'ella, queria talvez evitar que a mulher lhe ouvisse os gemidos. Deteve-se largo espaço assim, até que uma escrava, passando acaso, o surpresou n'aquelle lance. Como vexado da sua fraqueza, Leite Pereira entregou a menina á negra, e, enxugando o rosto, voltou ao quarto onde Maria Isabel estivera em rogos á Virgem, sem todavia saber que soccorros lhe cumpria pedir.

Entrou o marido, fechou-se por dentro, travou do pulso de Maria, empurrou-a para sobre um preguiceiro, sentou-se á beira d'ella, e disse:

—Porque treme? A innocencia não costuma assim tremer!... Porque treme?

—Pois eu vejo-te enfurecido sem saber que mal te fiz!... Sahiste de casa tão contente commigo...

—Quantas vezes a senhora escarneceu o contentamento com que eu sahia e entrava n'esta casa? Tinha alegria ou remorso de me enganar com juramentos sacrilegos, invocando o testemunho de Deus sobre a innocencia da sua vida de solteira?... Que responde?

—Voltas ás tuas suspeitas antigas...—balbuciou Maria Isabel, menos affoita do que tinha luctado n'aquella primeira noite.