—Não me irrite com referencias estupidas ás suspeitas antigas!—redarguiu o marido enfreando as arremettidas da raiva—Diga-me cá, barregan de clerigo, diga-me que conceito formou de mim, quando, depois de eu ter sahido d'aquella alcôva na primeira noite de meu deshonrado consorcio com uma manceba de padre Luiz da Silveira, voltei, passadas poucas horas, e me ajoelhei a seus pés, pedindo-lhe me perdoasse a injuria que fizera á sua puresa de menina solteira?
Maria Isabel soluçava uns gemidos que a estrangulavam. Elle arrancou-lhe as mãos do rosto, e bradou-lhe:
—Olhe para mim! Nada de momos! Responda: que juizo fez de mim n'este espaço de tres annos em que a tenho tratado com os extremos de noivo no primeiro dia da sua felicidade? Imaginou que eu fosse um vil, que se habituou á deshonra, a troco de vinte mil cruzados da sua infame mulher? Responda, que o seu silencio obriga-me a arrancar-lhe do coração a resposta!
—Não...
—Não... o quê?..
—Eu nunca te suppuz vil...
—Suppoz-me então enganado?...
—Enganado... não...
—Então, vil... uma das duas coisas... Em que ficamos: vil, conformado com a deshonra, ou enganado, isto é, persuadido de que tinha casado com uma mulher honesta?
—Meu Deus!—exclamou ella afflictissima—Matae-me, Senhor!—e punha os olhos sinceramente supplicantes na imagem de Jesus.