As ultimas palavras d'elle, proferidas com gravidade, mas sem tom de ira, foram estas:
—D'hora em diante eu continuo a ser seu marido perante o mundo; mas diante da senhora sou um estranho. Emquanto a mãe de minha filha assim quizer viver commigo, essa creança, que eu adoro, será sua tambem; mas, se este viver lhe não quadrar, eu sahirei com minha filha; e farei que ella nunca saiba quem foi sua mãe. Esta sentença não condemna o delicto da sua impuresa; condemna o enorme crime de me ter acceitado como marido. Concorda na minha proposta?
—Sim... concordo... Eu viverei como tua criada, se assim o quizeres; mas não me tires a minha filha.
—Retire esse tratamento do tu—voltou o marido com sobrecenho.—Nem uma palavra, nem um gesto que indique a maior ou menor alliança de duas almas que se estimaram, ou tredamente se dissimularam... Esta casa é bastante grande. Podem viver n'ella duas pessoas sem se encontrarem. A senhora é rica: administre o que tem: eu não tenho nada que vêr com os seus bens de fortuna. Ficamos entendidos. Qualquer infracção d'este pacto, estalará em tempestade sem bonança.
VII
Aquelle mercieiro, primo do mestre de Maria Isabel, attribulado agora pelas revelações que fizera a Roque da Cunha, avisou padre Luiz da Silveira, encarecendo os martyrios que lhe arrancaram o segredo.
O thesoureiro de S. Miguel de Alfama ponderou o melindre da situação, e maldisse a embriaguez que o levou á imprudencia de se gabar d'um delicto que elle julgava já esquecido e delido como o bôlo avinhado de que lhe espumara aos beiços a jactancia de ter sido amado da esbelta Maria Isabel Traga-malhas.
Trazia elle, ao tempo, requerimento bem protegido no paço, pedindo um beneficio na sé de Silves. O aviso do parente esporeou-lhe a diligencia na obtenção da prebenda; para o que, logo na mesma hora, se foi pessoalmente á côrte da Ribeira, e logrou alcançar do secretario de estado a promessa do despacho n'um dos seguintes dias.
No entretanto cuidou o padre de enfardelar o mais precioso dos seus haveres, sendo o sobre todos estimadissimo fardel, uma rapariga de bons quilates de bellesa, não sabemos se tambem discipula d'elle, se creatura já amestrada em amores, quando o cauto clerigo a installou na freguezia de S. Mamede, no Bêco dos Namorados,—nome gracioso que desdizia da immundicie d'aquella escura alfurja, apenas palmilhada a horas mortas, por um só namorado, que era padre Luiz. Este béco abria por uma das extremidades no Terreirinho do Ximenes, local azado para amantes clandestinos, visto que raro viandante por ali transitava depois das Ave-Marias.
Para afugentar o terror que o primo lhe incutira, pintando-lhe Roque da Cunha caudilho de uma horda de quadrilheiros facinorosos, padre Luiz fiava-se na convicção de que ninguem lhe suspeitava a lura, nem por aquelles sitios desfrequentados lhe faria espera. Ainda assim, como o seu mêdo era mais de clerigo do que de homem, e o escandalo o assustasse mais do que a lucta, cingiu um correão de pistolas, envolveu-se na capa longa de arruador nocturno, derrubou a aba do sombreiro aragonez, e, á hora do costume, sahiu com o intento de conduzir para casa do primo tendeiro a moça inquilina do Bêco dos Namorados.