Meia hora antes de elle entrar no Terreirinho do Ximenes, precederam-no n'aquella paragem, desembocando das Pedras Negras[2] dois vultos, que pareciam, no moverem-se umas sombras; e sendo dois homens, tão subtilmente deslisavam que difficil fôra estremar qual d'elles projectasse a sombra do outro.
—Hade passar aqui ou entrar pelo outro lado—disse Roque da Cunha a Domingos Leite—A tua paragem é esta; a minha é a outra. Dou-te o ponto mais arriscado, visto que m'o não cedes. Olha que o padre tem figados, torno a dizer-t'o... Até logo.
Domingos Leite retrahiu-se para o escuro de um arco sotoposto ao collegio jesuitico de S. Patricio, e acantoou-se no angulo mais comvisinho da passagem. O quarto de hora, que seguiu esta emboscada traiçoeira, arrastou-se vagaroso e dilacerante por sobre a alma ainda immaculada d'aquelle homem, que se via precipitado a um tal feito; que nem a vaidade nem o pundonor justificavam bastantemente a matar um homem desconhecido, que não o ultrajara, que era innocente nas suas angustias de marido e amante vilipendiado. Era atroz. Mas esse homem, ébrio ou infame, proferira com fatuidade o nome de Maria Isabel, conspurcando-lhe a fama, e assoalhando a deshonra do marido ao sêvo dos seus muitos inimigos, invejosos do patrimonio da esposa ou do rendoso officio com que el-rei lhe premiára intelligentes serviços. O orgulho afinal amordaçara o instincto da justiça; ainda assim, a batalha travada na consciencia de Domingos Leite era despedaçadora. A espaços, mettia-lhe horror na fantasia o pensar que rasgaria a punhaladas o peito do homem, cujo nome havia de ouvir dos labios d'elle mesmo; porém, se lhe negrejava no espirito a horrivel irrisão de encontrar-se rosto a rosto com o seductor da donzella, que se deixára poluir como um anjo de alabastro se deixaria inconscientemente despedaçar ás mãos de um ébrio furioso, então o pulso latejava-lhe iracundo no cabo do punhal, e o ouvido escutava com avidez o rumor de passos que lhe figurava a aproximação da victima.
N'este conflicto, ouviu o estampido d'um tiro, a curta distancia, e um grito agudo de voz de mulher. A detonação e o brado soaram do lado do Bêco dos Namorados. Promptamente reflectiu Domingos Leite que Roque da Cunha se encontrára com o padre; e, por saber que a arma do seu confidente era o punhal, inferiu que o outro desfechára com elle. Isto colligia correndo ao longo do bêco, de faca arrancada, e os olhos cravados no reluctar de dois corpos, sobre os quaes, a revezes, resvalava o frouxo clarão da lampada de um nicho.
Ao avisinhar-se dos dois vultos, entreviu o relampejo da lamina d'aço contra um corpo já cambaleante, e ouviu o rouquejar de moribundo, que pedia misericordia, ao mesmo tempo que de uma adufa de casa proxima estrugiam gritos á-d'el-rei.
A supplica de misericordia, que padre Luiz da Silveira vociferára, foi-lhe cortada pelo decimo golpe que Roque lhe vibrou ao peito; e quando Domingos Leite se abeirou do amigo, que alimpava o rosto banhado de sangue, já o mestre de Maria Isabel jazia morto.
—O ladrão crivou-me a cara de zagalotes!—murmurou Roque da Cunha—Olha do que eu te livrei, rapaz!... Vê lá se o diabo tuge, e toca a safar, que a barregan não se cala...
Domingos Leite olhou de revez para o cadaver que cahira de bruços, esforçou-se para ir examinar-lhe a respiração; mas as pernas tremiam-lhe.
—Não vais?!—disse Roque, embebendo na capa o sangue que lhe gotejava da face direita—Tu és covarde ou sandeu, homem?
—Podemos ir que elle está morto...—respondeu tiritando Domingos Leite.