—Podemos ir que elle está morto?—replicou sorrindo—Cá te avirás com o padre, se ressuscitar—volveu Roque, e sahiu pelo outro lado, descendo a calçada de S. Chrispim; e, atravessando o Beco do Bogio, baixaram até ás Portas do Ferro, onde morava o matador do padre.
Examinada a ferida, Domingos Leite decidiu, com a competencia de experto boticario, que o pelouro resvalára na maçan do rosto, sem ferir osso nem cortar veia importante.
O ferido, restaurando o sangue esgotado com uma botelha de vinho hespanhol, contou modestamente que o padre vinha entrando ao Beco dos Namorados, quando elle, ouvindo passos, se cozêra com a sombra de um cunhal, afim de o reconhecer, ao tempo que a lumieira do nicho lhe desse na figura; porém, ajunctou elle:
—O homem, a trez passos de mim, desembuçou-se, arremetteu commigo, poz-me a pistola tão perto da cára, perguntando-me quem eu era, que, a fallar-te verdade, se eu não tivesse alguma experiencia d'este mundo e a certeza de que ninguem morre duas vezes, talvez dissesse ao padre que fosse em paz e não contendesse com quem estava manso e quieto. Mas hasde tu saber, amigo do coração, que eu, quando tenho medo, mato mais depressa. Um gato brinca com a ratazana que a final estripa; mas, se é cão o inimigo, o gato crava-lhe as unhas logo nos gorgomilos, e não brinca. Deu-se com o perro do clerigo o mesmo cazo. Perguntou-me quem era, de pistola abocada. Respondi-lhe com as punhaladas, que o escrivão do corregedor ámanhã dirá quantas foram. Atirou-me á cabeça ainda antes que eu lhe tocasse. Folgo de ter luctado com um homem. Se eu tivesse matado um poltrão, isso havia de me custar remorsos, palavra de Roque da Cunha! Estás ahi a contemplar-me com uma cara de môço de côro da real capella, homem! Parece que o mestre de tua mulher, se até ha pouco te andava ás cavalleiras da honra, te peza agora ás cavalleiras da consciencia! Vamos a saber: estás contente commigo, ou querias que eu, em vez de matar o padre, lhe pedisse que me contasse historias do seu systema de ensinar raparigas?
—Sei que me não queres inxovalhar com esses remoques...—acudiu gravemente Domingos Leite Pereira—Eu sou um homem triste como todos os desgraçados, Roque!.. Se vês em meu rosto o terror, é porque a minha felicidade morreu primeiro que esse homem... que devia morrer. O meu desejo seria tel-o morto, para me apresentar á justiça, e dizer: «fui eu quem o matou; matem-me, que me dispensam d'um martyrio sem fim!..» E, se acontecer que a justiça te culpe, irei eu denunciar-me como matador. Agora, meu amigo, pelo que cumpre á minha obrigação para comtigo, sou a dizer-te que disponhas de tudo que eu valho, e da minha vida, que pouco vale.
—Tudo que tenho a pedir-te cifra-se em pouco—respondeu Roque da Cunha—Ámanhã fallas com o corregedor do bairro, e lhe dirás que estou doente: bem vês que não devo apparecer com o carão esfarrapado. Depois, trarás o betume com que se fecham estas gretas, e cuidarás de mim, mandando-me da estalagem do hespanhol do Largo do Forno umas empadas de gallinha, e do armazem dos Sete Cotovêlos algumas botijas do de Torres Novas. Feito isto estão saldadas as nossas contas; e, quando souberes que tua mulher t'as não dá direitas, abriremos novo saldo.
Uma hora depois, Roque da Cunha, affeito a dormir em conjuncturas analogas, admirava-se de não ter ainda adormecido: e Domingos Leite Pereira, entrando em sua caza com todas as precauções para não ser ouvido, fechou-se no seu quarto, abriu a janella para sentir na fronte esbrazeada o frio da noute, vagou a vista errante pelo ceu estrellado; e, chorando como nunca chorára, disse entre si:
—Porque sahi eu da tua sombra, meu pobre pai, que a estas horas dormes serenamente no regaço da honra!... Bem me dizias tu, minha sancta mãe, que eu fazia mal em deixar a caza, onde nunca chorara alguem até á hora da minha partida... para este inferno em que estou penando!
Ao arraiar da manhã, Domingos Leite ouviu, no corredor contiguo ao quarto, a voz da filha, que, por costume, se erguia de madrugada e ia deitar-se com o pai. Foi abrir a porta, tomou-a do collo da ama, agazalhou-a no peito, porque a menina tremia de frio, aqueceu-lhe o rosto com o respirar febril e cortado de soluços, e longo tempo anceou n'aquella tortura misturada com o desafogo aprasivel das lagrimas.