—Olha lá, Domingos Leite,—volveu Roque, cingindo-lhe o braço pelas espaduas—conselho de amigo que anda cá n'este vale de lama ha quarenta e oito annos...

—Que é?

—Não deixes a mãe de tua filha á matroca, com lastro de vinte mil cruzados na falua, e vinte e dois annos de edade, e com mais tentações no rosto que todas as moiras juntas em noite de S. João. Convento com ella, ouviste?

Domingos Leite encarou torvamente Roque, e respondeu-lhe, passados dois segundos:

—Que me importa isso a mim? Sabes que, ha um anno, vivo ao lado da mãe de minha filha, como se entre nós se mettesse a pedra que separa duas sepulturas. Nunca pensei em lhe dar maior castigo que o do meu despreso. O enclausural-a dentro dos ferros do mosteiro não a lavava da mancha indelevel de donzella que foi as delicias d'um padre. Eu sentia por ella alguma coisa mais implacavel que o odio: era o nôjo. Que me faz a mim já agora que essa mulher cave com as proprias mãos mais um palmo no seu abysmo de lôdo?

—Palavrorio!—replicou o quadrilheiro—Se tua mulher te não fosse leal, enforcaval-a como o alcaide de Belmonte fez á mulher por causa de outro clerigo da casta do padre Luiz da Silveira. ([Nota 11.ª]) Contava-me o caso minha avó, que era do tempo em que se enforcavam as fidalgas adulteras.

—Acabemos esta semsaboria...—cortou Domingos Leite com trejeitos desabridos—Cuida de ti, e não entrevenhas nas coisas alheias da tua alçada...

—Intervim de mais...—murmurou Roque estomagado do repellão—Cá vou tratar de mim, amigo Leite... Sempre será bom que me não ponham a prumo no logar onde eu puz o padre de bruços, por intervir de mais nas coisas alheias da minha alçada. Até á noite.

Ao separarem-se assim irritados, Leite Pereira, pezaroso da sua impertinencia, ainda se voltou para chamar o amigo e dar-lhe satisfação das palavras rudes; mas Roque da Cunha estugára o passo, como quem ia mais preoccupado da devassa que da offensa.

Este incidente carregou mais a treva d'aquella alma. Zoavam-lhe estridores metalicos na cabeça, e confragia-se-lhe a fronte crivada de dores como se esgarçassem por ella os espinhos mordentes de uma corôa. A revezes, parava, porque o respirar lhe dava afflições, ou o pavimento se lhe figurava um despenhadeiro. Quando chegou a sua casa, á Porta do Salvador, sentou-se no escabello do pateo, e arquejou largo espaço, olhando para a escada, ainda indeciso se subiria a despedir-se da filha, se encarregaria um criado de lhe levar a sua bagagem a casa de Roque da Cunha.