Esperou-o Domingos Leite, e disse-lhe offegante:
—Ámanhã sahiremos de Lisboa e passaremos a raia. Prepara-te.
—Então que ha?
—Uma ordem de prisão é o que vae haver contra nós. Fecha-se ámanhã a devassa.
—E para onde vamos? já resolveste?
—Para Hespanha.
—Está claro. O meu dinheiro são oitenta cruzados; mas tu vaes assombrar Madrid com o cofre do Traga-malhas, que Deus tem na gloria dos tanoeiros.
—Eu tenho de meu ainda menos do que tu—respondeu Domingos Leite com severidade—Escrevi a meu pae pedindo-lhe alimentos; se elle m'os não der, veremos em que trabalho a Providencia m'os depára.
—A Providencia, amigo Leite,—replicou o folião—não tem n'este mundo secretario das mercês conhecido, a não ser o padre santo. Este anda ás avessas com portuguezes, e não me parece que deva ser assaz amigo de quem lhe bate seriamente nos padres. Leva dinheiro, homem; que um portuguez pobre em Madrid vale menos que um judeu rico em Lisboa. Mas não esmoreças se fizeste voto de ir por Castella dentro com esclavina e bordão de peregrino. Lá está em Madrid minha mãe. Se ella me reconhecer e não tiver pejo de me haver gerado, não nos hade faltar boa meza em casa de meu padrasto o desembargador do Paço Francisco Leitão...
—Não percamos tempo—interrompeu Domingos Leite, aborrecido do tom jovial do interlocutor—Á noite, serei em tua casa, e de manhã partiremos.