—Eu tinha bom officio, e os grandes salarios que v. ex.ª me dava. N'este momento deixei de ser o escrivão do civel da côrte e o secretario do mordomo-mór. Sou um assassino sem patria. Verdade é que meu pae, o cuteleiro de Guimarães, apesar de eu lhe pedir que sahisse da forja e descansasse, com os seus haveres e os meus, o restante da velhice, ainda trabalha: mas eu não sei se elle enviará a um filho apregoado assassino o que adquiriu com o trabalho honrado que eu desprezei, apezar das suas supplicas...
—Mas...—atalhou o marquez—O sr. Leite, desde que casou, tem parte no grande patrimonio de...
—De Maria Isabel?—acudiu com vehemente repugnancia o secretario—D'essa mulher não tenho senão a parte que me cabe do seu desdouro. E quando eu pensava que a minha honra havia de sahir depurada d'este fogo que me devora desde a noite em que vi o cadaver do padre, afinal de contas, sou o mesmo desgraçado que era, e ajunto á desgraça de perder uma mulher que adorava, tres grandes infortunios: não terei de hora ávante patria, nem filha, nem meios de que viver com honrada independencia. Dos bens de Maria Isabel não levarei um ceitil, sr. marquez. Aqui mesmo, se v. ex.ª me permitte, escreverei a meu pae, a fim de o preparar para o golpe. Não posso mentir-lhe. Eu não matei; mas mataria com certeza, se estivesse no posto de Roque da Cunha. É forçoso que eu diga a meu pae que tenho um grande crime; mas que em minha consciencia não perdi o direito de lhe supplicar a esmola que os encarcerados imploram pelas grades das masmorras aos que vão passando.
O marquez enxugava as lagrimas, emquanto Domingos Leite Pereira escrevia, parando a cada palavra a penna, á espera que as palpebras embebessem o jorro das lagrimas. Ao dobrar a carta, murmurava o extremoso pai:
—Não vou despedir-me de minha querida filhinha... Isso é que eu não posso, meu Deus!.. Sei que não posso... Quando eu tiver partido, mande-a v. ex.ª buscar e falle-lhe de mim... Pede-lh'o esta alma que se me parte de angústia, sr. marquez! Eu queria que ella me não esquecesse; e, a não ser v. ex.ª, quem lhe fallará de seu pai!..
—Vá com a certesa de que heide mandar buscar a sua filha muitas vezes, e não desanime de voltar a Portugal, sr. Leite. Eu quero ainda vêl-o hoje á noite. Vá dar os passos que tem a dar, e volte a despedir-se do seu velho e inutil amigo.
Debalde o esperou.
IX
Elle disse que não teria animo de se despedir da filha. Animo de partir sem vêl-a é que elle não teve.
Sahindo do palacio do marquez seguiu o trilho de sua casa. A cada rua e travessa, por onde podia desviar-se, parava, guinando os olhos tôrvos e cheios de lagrimas, entre os dous caminhos. Em uma d'essas paragens de dolorosa perplexidade avistou Roque da Cunha, que marchava de cara alta, mão na ilharga, consciencia tranquilla no aspecto ridente.