—É ámanhã que deve sahir; porque depois de ámanhã fecha-se a devassa, infalivelmente.
O mordomo-mór beijou a mão do rei, e sentiu no animo recondita aversão ao soberano aprumo de D. João de Bragança. Latejou-lhe talvez nas arterias o sangue castelhano de seu pai, conde de Portalegre, tronco d'aquella alta vergontea que cahiu com a corôa ducal de Aveiro sob a lamina do algoz em 1759.
Sahiu triste o ministro a encontrar-se com o secretario, em seu gabinete. Referiu-lhe o que se passára com el-rei, deplorando a fatalidade que o privava temporariamente de tão bom como infeliz amigo.
Domingos Leite ouviu a nova, com exterior de mediano sobresalto.
—Agradeço a sua magestade—disse elle—a permissão de levar commigo o homem que associei ao meu funesto desaggravo. V. Ex.ª sabe que eu me furto ás penas da justiça mais para salvar Roque da Cunha. Nada monta para mim a vida, se sou obrigado a desterrar-me, e deixar a minha filha—unico amor que me ficou ao de cima d'este abysmo em que me vejo precipitado com tantas quimeras brilhantes que me enganaram. Todo me sinto perdido, e morto, peor que morto, se heide no exilio agonisar de saudades d'aquella creancinha...
—Eu olharei por ella—consolou o marquez—Se não vier tão depressa quanto eu desejo, sr. Leite, creia que heide conseguir mandar-lhe sua filha, logo que ella esteja creada.
—Não mande, sr. marquez...—acudiu Domingos Leite.
—Que não mande?! Porque não?..
—Porque eu não sei se terei lá fora de Portugal um pão que repartir com minha filha...
—Pois vm.ce não é rico?