—Mas vivem com apparencia de bem casados...—observou maliciosamente o rei.

—Um viver mais horrivel que a separação com escandalo publico, real senhor!—disse o marquez.—Ha um anno sei eu que nunca mais se fallaram nem viram de portas a dentro. Tem Domingos Leite uma filha que adora. Uma vez unica me fallou da sua desgraça, bem que me não desse novidade; porque eu, antes que elle a conhecesse, já a sabia das atoardas publicas, auctorisadas pelas gabações do clerigo. Então, n'essa vez unica em que Leite Pereira desafogou commigo, lhe ouvi dizer que pensava em sahir da corte, e recolher-se a Guimarães ao amparo de seu pai; mas que o não faria sem levar comsigo a filha; receava, porém, que a mulher, irritada por se lhe tirar a filha, desse occasião a divulgar-se um opprobrio nocivo á creança que elle queria defender da deshonra da mãe. Fiz quanto pude em despersuadil-o de tal proposito, incutindo-lhe sentimentos generosos de perdão á esposa por amor da filha. Este argumento não o convenceu, antes parecia exasperal-o; pois que, a seu ver, era indigna de misericordia tal mulher que, depois de o ter enganado quanto ao seu passado, e tendo a certeza que a morte do padre ninguem melhor do que ella poderia explical-a, em vez de viver amargurada do despreso do marido, ousava estadear-se nas igrejas e nas ruas com ar de senhora honesta, ou antes de mulher despejada que despreza os malsins da sua reputação, fazendo gala da sua formosura e riqueza...

—Tenho ouvido dizer que é muito formosa...—atalhou o rei.

—Não ha em Lisboa quem lhe dispute a primasia. Nunca Vossa Magestade viu mais galante mulher, sendo a côrte da rainha, minha senhora, a mais selecta de bellas damas!

—E o seu procedimento?

—Apparentemente bom—respondeu o mordomo-mór sorrindo—Digo apparentemente, porque não sei quantos astutos velhacos deixou em Lisboa o padre Luiz, nem Vossa Magestade crê que tão sómente os mestres de meninas tem a fortuna de armar em segredo as suas aboizes a estas avezinhas innocentes; e, depois que as avesinhas uma vez deixaram pennas das azas na esparrela, hade ser difficil fazel-as entralhar sem que ellas se guardem de perder a plumagem.

—Assim parece—assentiu o rei—Seja como for, Domingos Leite andaria melhor avisado se sahisse da côrte logo que vingou no padre a aleivosia da mulher, se aleivosia houve. Mandei suspender a devassa, quando eram já declarados os criminosos. Não consenti que se prendessem porque bastante causa dera o padre a ser castigado; e, alem disso, ás cegueiras do coração e do brio é mister conceder o que não concedemos aos matadores que matam de animo frio. É tambem culpado na morte do padre, como o marquez deve saber, um Roque da Cunha, que se tem salvo á sombra de Domingos Leite, e de alguns serviços que me fez. Sei que máo homem é, desde que ha seis annos me denunciou Mathias de Albuquerque por motivos de odio pessoal. Mas este e outros eguaes membros gangrenados não os posso amputar cerces, em quanto preciso me for espiar uns infames com outros infames. Se nos não valermos de quem os conhece de intimidade, não teremos quem nos ponha de sobreaviso. Já o marquez sabe a razão porque Roque da Cunha está logrando a impunidade de Domingos Leite. Porém, desde que Ruy Pires da Veiga voltou do seu voluntario desterro e passeia em Lisboa desmentindo e affrontando o boato, que lhe assacava a morte do padre, a devassa tem de proseguir, e os reos, muito a pezar meu, hão de ser presos, se estiverem no reino. Por tanto diga o marquez ao seu secretario que se retire sem demora de Portugal; e o homem, que o serviu na sua vingança, que se retire tambem, se Domingos Leite deseja salvar o cumplice. O julgamento de Domingos Leite correrá os seus tramites, e faremos que a sentença o não prive para sempre da patria.

O marquez de Gouvêa, bem que profundamente magoado, não ousou pedir ao rei que a devassa permanecesse suspensa. D. João IV esfriava a coragem dos poucos que privavam da sua confiança, quando dava ordens com tão carregado e resoluto semblante, quanto, antes de acclamado, era com todos os fidalgos ameno de tracto e docil aos votos alheios.

Bem quizera o amigo e protector de Domingos Leite rogar ao menos a delonga da partida, e n'esse intuito começou perguntando ao monarcha se era forçosa a sahida do seu secretario ainda n'aquelle mez de fevereiro, que ia em começo.

O rei respondeu: