—Não me atormente com interrupções frivolas!—obstou elle mal assombrado—Deve saber, senhora, que eu vou sahir de sua casa extremamente desvalido, pobrissimo, com umas migalhas que hontem recebi dos meus ordenados. Hade encontrar de portas a dentro tudo que seus paes lhe deixaram, e o mais que eu lhe pude accrescentar com os meus recursos. Se alguem na sua presença me alcunhar de homicida, não me defenda; mas, se lhe disserem que eu no desterro mitigo as saudades da patria com os haveres da mulher que a fatalidade me deu, negue, negue, senhora, porque eu fui cinco annos seu marido, e não toquei em um cruzado do seu patrimonio. Prouvera a Deus que esta creança tivesse a necessaria intelligencia para me ser testemunha da minha pobre honra, por essa parte illesa! Oxalá que depois da minha morte esta menina podesse dizer que seu pae foi um desgraçado sem nodoa na sua probidade!..
Fez uma dilatada pausa, porque os soluços lhe cortavam as palavras, emquanto Maria Isabel, tomando a filha nos braços, lhe ajoelhava outra vez.
—Não serve de nada essa humildade, senhora!—volveu elle com desalento e desesperação—Levante-se; peço-lhe que se levante, se alguma pena tem de mim. Eu necessito pedir-lhe que seja boa mãe... que ame esta creança, que reduza a sua existencia em lhe preparar o futuro. Lembre-se que eu lá do desterro lhe estou sempre pedindo que se sacrifique á minha filha. Expie a sua culpa, formando-lhe o coração com as virtudes que até as mães pessimas conhecem quando chegam a ter pezar do seu vilipendio. Faça tudo que entender preciso para que sua filha não leve com um pouco de ouro um grande cabedal de infamia a seu marido. Vigie-lhe os passos da mocidade afim de que o marido, que lhe escolher, não tenha de apartar-se d'ella com o ferrete de assassino na fronte. Não tenho mais que lhe pedir. Agora, rogo-lhe que me deixe.
—Não, não te deixamos...—tornou a esposa—Ó Angela, ó minha querida filha, pede com as mãos erguidas a teu pae que nos deixe acompanhal-o!
A creança ajoelhou, supplicando:
—Deixe, deixe, meu pae!..
Domingos Leite poz na mulher um olhar enfurecido, fez arremêço de indignação, e bradou:
—Quem lhe disse, mulher, que eu lhe perdoei?! Se estava morta para mim, como heide eu dar-lhe vida de esposa, fazel-a minha companheira do desterro, quando a justiça me persegue porque eu lhe matei o amante?
E, ao proferir a palavra indecorosa, olhou vertiginosamente para a filha, travou d'ella com impeto phrenetico, ergueu-a á altura dos labios, e murmurou:
—Eu morreria de vergonha, se me tivesses comprehendido!..