E, voltando-se para Maria Isabel, que tiritava apoiada no espaldar de uma cadeira, bradou-lhe:

—Deixa-me levar minha filha? deixa-m'a levar só a ella?..

—Meu Deus!—exclamou a mãe.

—Diga, diga!—instou elle com crescente vehemencia—Fica-lhe tudo, riquesa, mocidade, liberdade, tudo; mas deixe-me levar Angela... Não deixa?

—Não posso, não posso!.. Mate-me, mate-me, e depois leve-a!..

—Que a mate!.. Olhe que eu não tenho sangue nas minhas mãos, mulher!.. Veja-as, que estão limpas... eu levo sobre a consciencia o peso de uma enorme vergonha; não levo o peso de um cadaver, percebeu-me?... Pois cuida que as entranhas que tanto amam uma filha podem ser as d'um carniceiro? Poderia matal-a o homem que viveu anno e meio n'esta mesma casa, sem vêr a mulher que o mundo chamava minha esposa, e que viveu aqui, e d'aqui sahia todas as manhãs com apparencias de feliz, para que o mundo duvidasse de que a senhora tinha sido a recatada amante de...

Soffreou de novo a palavra infamante; e, cravando os olhos nos de Angela, parecia indeciso sobre a intelligencia da creança.

—Ó infindo tormento!—clamou Domingos Leite apertando a cabeça, e debruçando-se prostrado sobre o leito.

N'este lance, Maria aproximou-se do marido, poz-lhe a mão no hombro, e murmurou:

—Olha, Domingos, escuta... Leva a nossa filha.