Quando o desembargador procurou o brioso portuguez na estalagem, estava com o fugitivo um homem entre cincoenta e sessenta annos, vigoroso, encorpado, vestido de baeta, e coberto de tabardo de borel.

—Pelo vestido, parece-me portuguez do Minho do nosso Portugal, este homem:—disse Leitão a Domingos Leite.

—É meu pae; chama-se Antonio Leite; é de Guimarães, cuteleiro de officio. Avisei-o de minha fuga, pedindo-lhe meios para subsistir em Madrid. O meu pobre pae veio trazer-m'os, e volta para a sua forja.

—V. m.ce não precisava de pedir recursos a alguem, sabendo que estão aqui portuguezes. E voltando-se para o cuteleiro, proseguiu:—Bom pae, escusa de mandar dinheiro ao seu honrado filho, que nada lhe hade faltar em Madrid.

—Mercês, meu senhor—respondeu Antonio Leite—mas, em quanto eu poder lidar na officina, o meu Domingos, querendo Deus, hade viver do que é seu. Só tenho este filho; e, graças ao Senhor, ainda sinto braços para a bigorna. Oxalá que o rapaz nunca me sahisse de casa; que, a esta hora, não andaria por terras alheias...

Terras alheias!...—objectou o velho ministro de Filippe III.—Não é terra alheia Hespanha; hespanhoes todos nós somos...

—Nemja eu!—acudiu o cuteleiro—nem meu filho o hade ser, sem a minha maldição. Tanto eu como elle nascemos na rua de Infesta, em Guimarães, onde tudo é portuguez, desde que lá nasceu e se baptisou o primeiro rei de Portugal.

Francisco Leitão espirrou uns jactos de riso zombeteiro, e regougou por entre os insultos do catharro caquetico:

—Estas abusoens do povo, filhas da ignorancia, ainda mal que nos trazem divididos os filhos do mesmo tronco visigodo, e teimam em fazer nação um retalho de Castella, que já valeu muito sobre o mar, mas que pouco monta em terra firme. Meu honrado homem de Guimarães, dou-vos de conselho que não façais alardo do vosso patriotismo em Madrid, agora principalmente que tendes cá o filho, bem acolhido nos braços dos seus compatriotas, quando os compatriotas de lá o exterminam, e o enforcariam, se o houvessem ás mãos...

—Mas, sr. desembargador—interrompeu o vimaranense—o meu filho não tem crime de ir á forca; á forca devia ir o outro que...