—Meu pae—atalhou Domingos Leite, obstando referencias á causa do homicidio—o sr. desembargador não me accusa, para que meu pae me defenda. Isso pertence á justiça, que não se hade ver embaraçada com a minha defeza.

—Nem v. m.ce com a condemnação—accrescentou o ex-conselheiro de Portugal em Madrid.—Se em Lisboa os desforços das almas nobres são punidos como os crimes dos facinorosos de profissão, el-rei nosso senhor Filippe IV galardoa Domingos Leite Pereira com o habito da ordem de Christo, e admira-se que o duque de Bragança tão indignamente remunerasse a intelligencia do secretario do marquez de Gouvêa, alentado villão que se lhe vendeu pela mesma causa, que ainda se hade vender a el-rei de Hespanha.

—O sr. marquez de Gouvêa—observou Domingos Leite—não se vendeu.

—Então deu-se de graça como quem não achou comprador?—replicou o sarcastico Guedêlha, casquinando a sua asperrima risada.—Está v. m.ce bem informado. D. Manrique, filho do castelhano conde de Portalegre, não se vendeu: atraiçoou o rei que lhe deu a coroa de marquez. Mais infame, por consequencia, que os vendidos; que estes tem a desculpa da necessidade subornada pelo ouro; em quanto o marquez de Gouvêa se infamou gratuitamente.

Pereira Leite submetteu a replica ao respeito devido á provecta edade do conselheiro, e desviou a pratica incommoda, pedindo licença para não acceitar a mercê do habito de Christo.

—Porque não?—sobreveio o desembargador.

—Porque as honras, sem a procedencia dos serviços, não lisongeam o agraciado, nem grangeam a consideração publica. Eu, como v. s.ª sabe, sou pobre. Está aqui meu pae de quem me soccorro, falta-me posses para me ostentar, e contentamento para me prezar em mais do que valho. Digne-se v. s.ª ponderar a sua magestade a minha situação qual ella é. O meu prazer, se algum posso haver n'este mundo, é a obscuridade, a solidão, o chorar tudo quanto perdi, e mais que tudo uma filha, que era toda a minha vida, e brevemente me será a morte...

—Sei isso;—interrompeu Francisco Leitão—já tudo nos contou Roque da Cunha; e minha mulher disse logo que a sua filha hade vir para a nossa companhia; e, desde menina, hade pisar as alcatifas do paço.

—Beijo as mãos de v. s.ª e de sua illustrissima esposa—disse commovido e grato Domingos Leite, desafogando em esperanças a saudade que lhe apertava o coração.

—Havemos de gizar o melhor modo—prosegiu o ministro—de trazer sua filha a Madrid, quer a mãe queira, quer não queira. V. m.ce tem um amigo capaz de tudo que é difficil. Se Roque da Cunha tentar trazer-lhe sua filha, vae a Portugal, e só não voltará, se os carrascos do duque de Bragança tiverem grande faro e grande sêde de sangue. Entretanto, se me deixa dar-lhe um conselho de amigo, de ancião, e de homem, que ha cincoenta annos lida com o capricho dos reis, digo-lhe que acceite o habito de Christo, e não perca azo de ajoelhar a sua magestade, agradecendo-lh'o. Lembre-se, emfim, sr. Domingos Leite, que D. João de Bragança, podendo rasgar a sua devassa, como rasgou tantas outras de inimigos pessoaes que se lhe venderam, ordenou ao mordomo-mór que lhe impozesse o desterro, como quem diz: «escolher entre o exterminio e o patibulo!» Bom amigo! raça de Bragança pura! couce de quartão gallego em quem o affaga, e orelha cahida ao ver o látego na mão do potreiro... Conhecemos de ha muito quem são os Braganças: por uma linha coito damnado, pela outra o lavrador de Veiros que não se tosquiou, desde que o bastardo de Pedro I lhe pegou da filha para fabricar em ella uma vergontea ducal. Ora bem... estou cansado de taramelar, meu amigo e sr. Leite. Vou-me com Deus, e cá deixo á apreciação do seu espirito intelligente estas phrases que, bem espremidas, hão de estillar muito succo. Medite-as, e... seja esperto, porque o facto de ser infeliz não o força a ser inepto. Sem mais. Escuso dizer-lhe que o deixo na obrigação de me visitar. Minha mulher quer conhecel-o, e perguntar-lhe por certas fidalgas das suas relações. O nosso grande amigo D. Rodrigo da Cunha ha quatro annos que foi dar contas a Deus do logro que pregou ao povo, fazendo cumplice das suas tramoias o braço do Senhor Crucificado. Quem diria que um prelado de tantas lettras havia de socorrer-se de tamanhas trêtas! E aquillo feito por um politico, derrancado pelo mimo com que el-rei nosso senhor o tratou a elle e a toda a parentella! Emfim, adeus; que eu, se começo a bacharellar, não despego d'aqui. Eu lhe contarei quem são os faccionarios do duque de Bragança; e, se Deus quizer, cêdo o convencerei de que o fidalgo mais facil de vender Portugal a Castella é esse a que lá chamam rei. ([Nota 18.ª])