Na ausencia de Francisco Leitão, o cavalleiro da ordem de Christo olhou para a cara espantada do pae, e disse tristemente:

—Por desgraça, este inimigo de Portugal disse verdades horriveis. Eu sei que ha torpezas reconditas nas secretarias dos ministros de D. João IV: e, se essas são sabidas em Madrid, o edificio de 1640 hade vir a terra, derribado pelos mesmos que o levantaram. Ainda assim Deus sabe que eu desejo morrer debaixo das suas ruinas. Prouvera ao ceo que eu não estivesse em Madrid no dia em que a nossa querida terra hade ser juncada de cadaveres do povo; do povo sómente; que os fidalgos esses hão de ter novas cedulas em aberto como no tempo...

—Em que teu avô morreu na hoste do sr. D. Antonio—atalhou o pae—e eu, se Deus até lá me der vida, não hei de ver soldados hespanhoes no castello de Guimarães. Domingos!—proseguiu o artifice com vehemencia—não me ponhas essa venera ao peito; deixa-me primeiro fechar os olhos; e, depois, cá te avêm com a tua vida; que eu não veja isso, nem ouça lá dizer aos meus visinhos que tu és castelhano.

—Não ouvirá, meu pae...—refutou o filho.—Mas attenda á minha situação de foragido, em meio dos encarniçados inimigos dos bons portuguezes. Se eu campar de patriotismo em Madrid, de certo não terei amigo que me avise para fugir d'este reino para outro. Procederei de modo que não dê suspeitas a Portugal nem a Hespanha, até que um dia possa ir obscuramente morrer á casa onde nasci...

—Irás, meu filho—atalhou o cuteleiro, debulhado em lagrimas—Eu d'aqui vou direito a Lisboa, e irei lançar-me aos pés de el-rei...

—Não dê similhante passo—despersuadiu Domingos Leite.—Dois homens unicamente poderiam dominar o animo de D. João IV. Um, o mordomo-mór, rogou e foi seccamente desattendido; o outro é o alcofa do rei, Antonio Cavide, o secretario de estado, que me odeia, porque eu ousei censurar ao ouvido de quem me denunciou, que um ministro da sua polpa andasse negociando com as açafatas do paço os amores do seu rei. Desista do seu intento, que é humildade e abjecção inutil. O que eu lhe rogo é que vá ver minha filha....

—Não!—objectou o velho tregeitando um gesto de indignado.

—Porque, meu pae?

—Porque terei de ver a mãe! Não hei de ver essa mulher que te fez desgraçado! A creança não tem culpa; é verdade; mas, se eu lá for, parto a cabeça da mãe contra uma parede!

E, dizendo, estirava os ligamentos das mãos e arqueava os dedos, como se entre elles sentisse a cabeça da nora.