N'este comenos entrou Roque da Cunha, galhardeando capa e sombreiro novos, espada no telim, meias de seda, gibão de passamanes, calças golpeadas, e um tregeitar de corpo que denotava estar lá dentro uma alma espanejando-se em jubilos.

—Soube agora mesmo—exclamou com alvoroço o filho de D. Vicencia—que estava aqui teu pae. Venha de lá esse abraço!—proseguiu Roque, estreitando ao peito o cuteleiro, que se deixou abraçar impassivelmente.

—Este é o meu amigo Roque—interveiu Domingos apresentando-lh'o.

—Ah!—disse o velho, abaixando a cabeça, sem lhe desfitar os olhos onde se espelhava a desagradavel impressão que lhe incutira o aspeito do cumplice de seu filho.

—E amigo como poucos!—confirmou Roque—Amigo como nenhum! Amigo como eu só sei ser, quando os homens cá me chegam ao coração.

—Sim, senhor...—balbuciou Antonio Leite, forcejando por sopezar a antipathia que os gestos e maneiras do homem lhe oppunham aos transportes de gratidão, proprios da conjunctura.

—Teu pai está sorumbatico, ó Leite!—observou Roque, despeitado da recepção fria do velho.

—Está triste...—explicou o filho.

—Porque?!—volveu o jovial enteado de Francisco Leitão, fazendo posturas gymnasticas e reviravoltas.—Triste devia o nosso velhote estar, se em vez de vir a Madrid visitar um filho, cavalleiro da ordem de Christo, o houvesse de ir visitar a Lisboa, ao Limoeiro, d'onde alguns cavalleiros costumam sahir para dar cavallaria aos carrascos. Por que está v. m.ce triste? Diga lá! Cuida que em Hespanha não medra a melhor gente de Portugal? Tem medo que o seu filho soffra privações em uma nação, onde é recebido nos braços de um desembargador do paço, e coberto com o manto de cavalleiro que el-rei Filippe IV lhe manda, sabendo que Domingos Leite Pereira foi o discursador fogoso nos tumultos de Evora, e um dos mais estrondosos gritadores da acclamação do duque de Bragança?...

—Legitimo rei dos portuguezes—accrescentou o cuteleiro, baixando reverentemente a cabeça.