—Isso agora—replicou Roque da Cunha—é questão que nem v. m.ce nem eu decidiremos, em quanto não tivermos gráo de doutores de Salamanca. Deixemos esse officio a quem toca. V. m.ce faça partazanas na sua officina; e eu, em quanto não tiver officio, preferirei não fazer nada a fazer legitimos reis, que é coisa que não sei fabricar. Sr. Leite, sabe que mais?... Seu filho nada deve ao duque de Bragança. Se teve bom officio, maiores serviços prestou seu filho ao duque, e maiores premios devia D. João á sabedoria de Domingos Leite. A final, pagou-lhe como era de esperar de um aventureiro que subiu de duque a rei, e desceu de rei a villão, desprezando o amor provado dos amigos e galardoando o odio solapado dos inimigos, para firmar sobre consciencias vendidas a segurança do throno, de cuja legitimidade e firmeza tanto crê elle como eu. Chegada a occasião de provar que estimava Domingos Leite, não só pelo que lhe devia, mas tambem pela honra do seu delicto, que fez o seu rei? Ordena-lhe que se desterre voluntariamente, que se despoje do seu officio, que perca a patria e o pão, sob pena de ser preso, julgado, sentenciado e talvez inforcado, porque as testemunhas da devassa o culpam, de cumplicidade na morte de um clerigo torpe. E sabe v. m.ce a rasão que tem o duque para querer fingir-se justiceiro na morte do clerigo? é porque elle preza os traidores, e premeia-os á conta de os ter sempre á volta de si. Ora, como o padre Silveira lhe delatou os fidalgos em 1641, quer agora o tal chamado rei honrar-lhe a memoria, exterminando este honrado moço, a fim de que elle não possa defender-se; porque, se Domingos Leite entrasse em julgamento, havia de sahir absolvido na consciencia do povo, embora o levassem do tribunal para o oratorio.
Com quanto Antonio Leite não objectasse ao longo arrasoado de Roque da Cunha, o silencio do velho não desapprovava nem assentia; todavia, os modos grutescos do amigo de seu filho cada vez lhe azedavam mais a invencivel repugnancia.
Quando, emfim, o alegre e palavroso neto da Barbara da rua dos Cabides se despediu para ir visitar homisiados portuguezes chegados recentemente a Madrid, Antonio Leite disse ao filho:
—Tenho má fé com este homem, Domingos!...
—Porque, meu pai?!.. Não vê que elle me deu provas de amisade tamanhas, que por amor de mim perdeu a patria e o officio que tinha?
—Provas de amisade...—murmurou o artifice—Maiores te daria eu, se, antes de resolveres matar o padre, me contasses a tua vida. Bom amigo seria o que te aconselhasse a não o matar...
—Então?... que me aconselharia meu pai?!
—Já t'o dei a perceber logo que me contaste as tuas desgraças. Eu, se fosse tu, fazia de conta que não tinha mulher. Tirar a vida a um homem sem rasões muito fortes, não se conforma com a minha rasão. Se elle fosse teu falso amigo, ou te desinquietasse a companheira, vá; mas, se nem ella era tua mulher nem elle sabia que tu a pretendias, mal aconselhado andaste; e, se foi este amigo que te aconselhou, máo amigo foi. Dizes tu que não puzeste a mão no padre: que foi Roque da Cunha quem o matou. Peor, peor! Quem mata um homem, que o não offendeu de longe nem de perto só por ser agradavel a um amigo, e anda depois, á laia d'este, contente e prazenteiro, olha que não é a primeira vez que mata, nem lhe custou muito essa prova que deu. Tens um máu amigo, Domingos... Acautella-te d'elle.
—Não seja injusto...—voltou o filho com menos calor do que era de esperar em defeza de um amigo calumniado—Conheço ha onze annos Roque da Cunha, e achei-o sempre leal e serviçal até pôr o seu braço desinteresseiro em desaggravo da minha honra. Não foi elle que se me offereceu para matar o padre; fui eu quem antecipadamente o obrigára por juramento a correr commigo todos os perigos...
—E dize-me cá—interrompeu Antonio Leite—este homem era bem procedido quando te amistaste com elle? Vivia com honra?