—Não tenho que ver com o que elle era...—respondeu Domingos Leite froixamente, lembrando-lhe o assassinio do pai de Miguel de Vasconcellos, a denuncia de Mathias de Albuquerque, os insultos que este general recebera á entrada da Torre de Outão, e outras malfeitorias que não sobreviveram á memoria dos contemporaneos.
—Não tens que ver com o que elle era?—repetiu tristemente o velho—Pois, filho, muito te convem estar de sobreaviso para o que elle hade ser.
Estas palavras, proferidas torvamente, impressionaram o espirito já preparado a recebel-as sem constrangimento da rasão, bem que ao animo reconhecido de Domingos Leite doêsse o consentir em tão austeras demasias. É uma sancta verdade não haver alliança de estima honesta entre dous homens pactuados por um feito criminoso. O affecto de Domingos Leite Pereira a Roque da Cunha era tão simulado ou sobreposse, quanto os remordimentos de um e o despejo do outro se distanceavam entre si. O coração—que desbordava de lagrimas, scismando na filha estremecida, e, ás vezes, vibrava de angustia, pensando que a esposa poderia vingar-se dando a outro a belleza desprezada—não entraria aos lodaçaes, onde as grandes angustias se atordoam e atrophiam, imparceirado com Roque da Cunha.
Domingos Leite era muitissimo desgraçado, quando seu pai o deixou, indo a Guimarães vender o prediozinho que representava trinta annos de economias.
XI
Chamava a cada hora pelo pai a inconsolavel Angela.
A mãe acariciava com beijos o rosto da filha; e, soluçando, dizia-lhe que o pai não tardaria.
A menina adoeceu de molestia que a mãe attribuiu a saudade. Maria Isabel desvellou as noites de joelhos á beira do leito; e, invocando o testemunho ou a piedade da Virgem do ceo, protestava suicidar-se, assim que sua filha morresse.
Quando Angela se amodorrava em lethargia febril, Maria Isabel escrevia ao marido a historia por minutos da doença da filha. Cada pagina terminava por nova supplica de as levar para si, a não ser que a creança expirasse, que então nada lhe pediria a não ser o perdão.
A desventurada amava o marido n'aquellas horas escurissimas. As derradeiras palavras d'elle, ao despedir-se, compungiram-na profundamente, por que gemiam na alma onde o desalento amolentára os espinhos do odio. O natural despeito de se ver desprezada, por espaço de anno e meio, pôde menos que a consciencia de haver matado o porvir d'aquelle homem, tão prosperado e ditoso n'outro tempo! Alanciavam-na remorsos de o ter enganado, e pensou que a Providencia a punia, pondo-lhe o marido no desterro e a filha na sepultura.