Angela resurgia salva da perigosa enfermidade, quando Maria Isabel, fechando a longa relação com a fausta nova da convalescença, sobrescriptou a carta para Madrid.
N'aquelle tempo, cartas enviadas a Hespanha eram revistadas e rasgadas quando não davam margem a suspeitas. Todo o portuguez que demorasse então em Castella peccava por traidor á patria ou criminoso foragido á justiça. Domingos Leite Pereira fôra arrolado na classe dos ultimos.
Tanto que o seu confessor lhe disse que o marido não recebia as cartas, Maria Isabel, soffreando o pejo, recorreu pessoalmente ao marquez de Gouvêa, levando comsigo a menina. O velho mordômo-mór recebeu-a com benevolencia. As lagrimas em rosto formoso ensinam a delicadeza e afinam almas compadecidas. Entretanto, o marquez não se prestou a transmittir as cartas, receando molestar a irritabilidade de el-rei.
—Mas que mal fez meu marido a el-rei?—perguntou Maria Isabel.
—Não fez mal directamente a el-rei; uzurpou-lhe simplesmente o direito de castigar. Quem mata um homem sem poder allegar que o fez em justa defensão de sua vida, dá a entender que o faz desconfiado da lei.
—Então o sr. D. João IV persegue meu marido?
—Não, senhora; permitte que a justiça cumpra o seu dever.
—E, se eu fosse com a minha filha lançar-me aos pés da rainha?
Sorriu-se o marquez em ar de reprovação do alvitre, lembrando-se que D. Luiza de Gusmão impedira que el-rei se deixasse apiedar das deplorações da duquesa de Caminha, quando já se estavam carpintejando as peças do cadafalso. Alem d'isso o mordomo-mór sabia que o nome da mulher de Domingos Leite chegára ao aposento da rainha com o labeo de prostituida a um padre. Não revelou o que lhe passava na mente, e fez apenas um gesto negativo.
—Mas el-rei não me trataria com desabrimento?—proseguiu ella.